domingo, 21 de julho de 2013

Num dia paulista e cinzento, depois que pai desenhou navios.


Num dia paulista e cinzento (Ana Lúcia), como hoje, 21 de julho de 2013
Porque há sempre pai que desenha navios. Porque ninguém tem privilégios.


 

 
E, a meu ver, algo confessado a alguém por confiança, se espalhado, é mentira, já que  deslealdade solta ao mundo é equivalente à mentira!
 
Se for muito segredo, segredo bem grande, daquele que venha a magoar você mesmo, então guarde. Se for segredo que dê a você mais confiança como gente e que não prejudique ninguém, pense muito bem se deve passá-lo.
E, se for segredo que nasce de muito prazer, jamais confesse.
Sinta eternamente o seu prazer exclusivo.” (AL)
 
 
 
Sentada na murada do porto, lá no canal de Santos, a Menina olhava para seus próprios pezinhos que balançavam. As sandálias tinham ficado largadas, encostadas no muro. Vez ou outra, levantava os olhos e meia cabeça. Espiava um navio que viesse atracar naquele cais. Pouquíssimas ondas. A cor do mar não era compatível com as descrições dos poetas que lia, nem das estórias que ouvia. Nada de cristalino nem verde esmeralda. O mar ali era denso e verde escuro, muito escuro. Quase petróleo.
 
Ela ficava naquele movimento de balançar pernas, pezinhos e olhar o mar. Não tinha muito vai e vem de ondas. A menos que algum navio bem grande chegasse.
 
O que ia e vinha eram os olhos da Menina.
 
Mas os cheiros...
 
Os cheiros eram maresia misturada com óleo. As brumas podiam anunciar chuva ou mormaço. Ela não entendia muito bem se naquele certo dia iria chover, se o horizonte reto de tudo significaria sol... Ela simplesmente não entendia. Balançava as perninhas e às vezes lançava um subolhar verde, lá para o horizonte reto.
 
 E assim iam pezinhos e perninhas pra lá, prá cá.
As sandálias devidamente guardadas atrás dos muros do cais. Os olhos enxergavam um horizonte fixo, abaixo das águas que se escoravam na murada. Viam o que conseguiam ver. As pontas dos dedinhos das mãos formavam uma cabaninha em ângulo sobre os olhos que, bem apertados, buscavam perceber o tal lugar de sonhos, cheio de minaretes. Lanças apontadas para o céu que lhe traziam homens e mulheres carregados de curiosidades e choros.
 
Era sempre assim, até que chegava o Gigante, sentava-se a seu lado, dava-lhe as mãos, balançava as pernas fortes junto com as suas perninhas, olhava abaixo e muito além daquela água quase parada na murada. Colocava os olhos castanhos esverdeados no horizonte fixo e explicava tudo o que a menina não entendia.
 
Lua Crescente, conquistas, batalhas, novas terras, tecidos coloridos, odaliscas, ouro...
Enfim, tudo que seria incompreensível e que começava: “Lá na minha terra...”
 
A menina se estendia no muro e confortavelmente deitava sua cabecinha no colo do Gigante. Já não precisava ver. Bastava-lhe ouvir.
 
E o Gigante falava de navios, marinheiros, tombadilhos e escotilhas. Descrevia tudo, com muitos detalhes, de modo que de repente o mar entrava em movimento. Grandes navios se aproximavam, enquanto as ondas pareciam espumar e exalar cheiros.
 
Vinham as histórias de Atlântico distante. Atlântico que beirava e se misturava no Mediterrâneo. Pedrinhas na areia, sol forte e algo que à Menina pareciam casinhas muito brancas, pregadas nas rochas de países que a ela não passavam de estórias ou desenhos em livros com ilustrações fabulosas.
 
Como o mar, as estórias do Gigante passavam a fazer parte de sua história. Nem ela, Menina, sabia. História guardada na sua alma afetiva, segredos do coração que ela não ousava revelar a qualquer um......
 
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Quase oito da noite, depois de um dia pesado no escritório, Marta largou a bolsa na poltrona da sala, assim que entrou em casa. Cansada, muito cansada. Fora o estresse de costume, o trânsito e a chuva que não tinha parado o dia todo, a semana toda. Semana cinzenta da hora de acordar até a hora de dormir. Dois contratos desfeitos, um a confirmar. Contas pagas, outras penduradas. Clientes insistindo em resultados. Outros desistindo de negócios. Dinheiro saindo, pouco dinheiro entrando. O vai e vem da vida e pouca compensação.
 
 Marta queria paz. “Voltar ao útero materno”, pensou.
 
Largou os sapatos no corredor a caminho do quarto e seguiu direto ao banheiro:
 
 Uma deliciosa banheira, cheia de água morna, sais de algas, velas aromáticas. Preciso de força.”
 
Preparado o banho, sem roupa, balançou as mãos na água. Teste de temperatura.
 
“Boa”, sentiu.
 
Sentou-se na parte reta da banheira, colocou devagar os pés na água e balançou as pernas. Fechou os olhos e se lembrou do mar da infância.
 
Calmamente, foi entrando no banho, o aroma das algas subindo. Ao fundo, o som de um blues, separado para essas ocasiões de relaxamento.
Já dentro da banheira, ajeitou o pescoço na almofada encravada no mármore, desenhada em formato de concha, exclusivamente para que ela se encaixasse nos seus banhos e ouvisse seus sonhos.
 
Assim deitada, olhos fechados, embalada por cheiros e som, entrou naquele estado alfa. Estado de prazer.
 
Sentiu o Gigante de sempre, mãos fortes agarradas às dela.
 
Tudo em volta fluía, ia e vinha com muitos sons, visões e cheiros. Sempre e sempre. Marta voltava a ser a Menina, muito menina de olhos verdes, o pai de olhos verde-castanhos, a mãe de olhos escuros. Todos olhando o mar verde-escuro.
 
Sentia-se feliz, mergulhada nos sonhos de aromas e sensações.
Seu segredo onírico e inviolável. Sua fortaleza.
 
O Gigante sentou-se então à beira-mar, aquietou-se por um segundo, beijou a testa de Marta menina, deu um sorriso entre carinhoso e irônico e começou a contar estórias, muitas estórias.
 
- Certa vez - começou - um navio do lugar das comidas diferentes surgiu no alto mar, e trouxe marinheiros e odaliscas vestidas com tecidos finos e coloridos. Eles vinham dançando, alegres. Era um navio que chegava lá da minha terra, você sabe... todos aventureiros que disparavam para os lugares onde acreditavam podia haver coisas melhores pra acontecer.   Foi assim comigo, já falei. Ainda sinto saudade do mar da minha terra. Mas, olhe, aprenda a perceber pela cor do mar se a maré vai subir ou descer, se o tempo vai ser de sol ou de chuva. Preste sempre atenção na cor de tudo e de todos. As pessoas são mares e têm suas marés. Conhecendo suas cores e tons, fica mais fácil se prevenir. Isso, chegue mais perto de mim. Vou mostrar como se pegam siris. Coloque a armadilha na hora certa. Aguarde a maré baixa. Deve ser madrugada. Na maré alta, recolha a armadilha. Pronto, siris. Cozinhe-os na água só com sal. Quebre-os e saboreie... Não têm doces nem balas que se igualem aos siris caçados na maré alta. Outro dia ensino você a pegar mariscos, ostras, caranguejos, polvos, lulas, e outros bichos do mar... Então, continuando, daquele navio, os mais aventureiros desceram e foram ficando por este mundo. Alguns, perto do mar mesmo. Outros se meteram por terras mais distantes a mascatear pelo interior. Os do mar se amigaram com os peixes e, na falta de navios, entravam nos barcos dos amigos pescadores locais. Gostavam de pescar à noite, na lua crescente, do Oriente. Então, na escuridão, tinham a impressão de que aquela água salgada conhecia a sua terra, que a água já tinha passado pelo porto da infância, e mergulhavam na escuridão do mar. Na volta, escolhiam os melhores peixes, levavam para casa e, na hora de preparar...Aprenda, Marta, os segredos dos sabores que trago da minha infância, lá do Verde Mar Azul Mediterrâneo Atlântico. Sinta os aromas. Saboreie. Mas, preste atenção, vou desenhar o navio de que estou falando.
 
Ia traçando no ar os detalhes do navio, explicando peças e mecanismos.
 
- Têm também os nós de marinheiros que você deve aprender. É importante porque assim você pode atar e desatar nós por toda sua vida. Segredo nosso, combinado?
 
Ria ao falar em segredos.
 
Quando vim pra cá, viajei de segunda classe. Fiz andanças pelo interior, cacei bichos diferentes dos da minha terra. Voltei pro mar. Sou um gigante do mar, sabe? Nossa, você está cada vez mais parecida com sua avó!
 
Ao dizer isso, entoava canções árabes, quase choros de palavras difíceis de se compreender, mas que com o tempo tinham se tornado familiares, melodias e palavras.
 
Então, eu sou o Gigante do mar. Por isso minha cara de peixe, meus olhos de peixe, minha pele morena e salgada. – e ria novamente.  
 
Um dia, conheci uma mulher linda. Parei minhas andanças e passei a viver com ela e por ela. A mais bela sereia que você possa imaginar. Como a amei todos os dias da minha vida! Eu a cobria com os tecidos mais delicados e a perfumava com os aromas mais femininos que encontrasse. Enfeitava-a de jóias.
 
Neste ponto, o Gigante dava sempre uma paradinha, suspirava, a voz ficava mais mansa e o sotaque estrangeiro se acentuava.
 
Gostava de acreditar que vim de navio, atraído pelo canto daquela sereia. Cozinhava pra ela, dançava com ela. Éramos marinheiro e odalisca no navio de aventureiros. Felizes, navegamos juntos por muito tempo. Tivemos três filhos, como você já sabe. Todos têm a leveza das brumas do mar. Por isso, Marta, não se entristeça nem se canse demais. Não ligue para os dias chuvosos e estressantes da cidade grande. Você é bruma. Eu e a sereia continuamos aqui, no navio, dançando felizes. Minhas estórias são inesgotáveis e posso contá-las quantas vezes for necessário. Tem muita coisa que ainda não ensinei a você e muito segredo que ainda guardo. Não pode ser tudo de uma vez. Descanse. Voltarei sempre.
 
A água da banheira começava a ficar fria e Marta, aos poucos, foi abrindo os olhos. Notou que estava mais calma. Da janela, viu a chuva que ainda caía. Saiu da água, calçou as sandálias encostadas na banheira, enxugou-se, passou hidratante no corpo.
 
Fechada em seu mundo muito particular, ainda ouvia a voz do Gigante que ecoava e sentia a mão que ele apertara na sua.
 
Vestiu-se, perfumou-se e foi cozinhar.
Peixe assado, temperado com as palavras do Gigante. Segredos culinários, muitos segredos.
Riu e, sem se dar conta, cantarolou:
 
 Tomei um Ita no Norte e vim pro Rio morar; Adeus meu pai minha mãe...
 
Engraçado esta música me vir à cabeça! Nada a ver com o navio mediterrâneo. Se bem que nasci no Rio...”
 
Será que nada a ver?
 
O adeus de quem parte de qualquer lugar do oceano que beira qualquer continente, qualquer pátria, é triste e traz sempre o desejo de voltar. Traz saudade. Adeus pai, adeus mãe.
 
Ninguém sai de onde está feliz. Isto é fato.
E ninguém comanda seu destino. Outro fato.
Saudade é fato; sentimento incontestável.
 
Saudade e recordação não se podem impedir.  Lógico, racional.
Muito menos se impede o quase dever sentimental e inquestionável de transmitir a pátria interior àquele que descende e merece mares e terras não conhecidas. Marta merecia. Chegaria a ser desleal aos que não são nascentes, como Marta, não receberem um pouco da pátria, dos ares, dos mares,  areias, gramas e ventos trazidos por seus gigantes.
A pátria do coração. De nascença ou de abandono. Abandono querido ou não.  Abandono necessário e destemido. Abandono poético, atraído pelo canto de sereia, distanciado por um mar imenso, tangente, lá longe, muito longe das lágrimas derramadas dos que ficaram.
 
E enquanto houver esperança do retorno, quem partiu carimba passaporte da saudade nas Martas meninas sentadas nos muitos cais do mundo, que olham mares, navios e ouvem, recostadas em colos, sua próprias histórias.
 
Histórias de suas vidas ou histórias de suas outras vidas.
 
É saudade de pai. Aquele Gigante que protege a cabeça, os pensamentos, a sanidade mental. É saudade de si.
 
O Gigante, um contador de histórias de sua terra de mares verdes. Norte, sul, leste, oeste.
 
O aroma do peixe no forno já se espalhava pela casa. Ouviu chaves na porta de entrada. Chegou o primeiro filho, depois a filha, depois o outro filho. Marta beijou cada um. Mesa posta, peixe servido e, nesses afazeres, Marta ia explicando ao mais moço como dar e desfazer nó de marinheiro. À filha segredou os temperos do peixe. Mais tarde poderia contar outros segredos de mulheres. O mais velho apenas olhava para ela e sorria. A ele Marta já tinha desenhado navios, mostrado marinheiros e suas odaliscas, pressentindo que ele já ouvira um canto de sereia e em breve partiria levando as estórias e os segredos.
 

E, se um dia o pai de qualquer menina desenhou navios, houve também , depois, dia cinzento e frio.


Delicadezas Todas

 (Ana Lúcia – 15 de março de 2010)

 

 

No aeroporto,  meu nome vi.

No meu, vi o de todos.

E nós, nomes e todos, batemos acelerados.

 

 

Diversos voos, todos os corações.

 

Acima das nuvens,

Plainavam asas, corações e nós.

 

Pouso!

Pousemos,

Todos!

 

 

Aviões do tempo.

Vôos inomináveis de desejos.

 

Desejemos!

 

Delicadeza da segurança e bem querer.

 

Reencontremos!

 

Repouso.

Repousemos!

 

 

A jato, passado, presente e futuro.

Ansiedade dos quereres bem.

 

Voemos!

 

 

Cheguemos lá, bem longe no passado

E aqui, no maravilhoso presente que nos dão,

finquemos os pés.

 

Ancoremos!

 

Mas que se libertem os corações e que eles batam, batam até, até...

Liberdade a eles e aos nomes.

 

Anônimos!

 

Falas, risos, doces, músicas...

 

Voemos todos  muito alto!

 

Então, chegam as redescobertas.

Fisionomias cravadas nos avós e bisavós de hoje.

 

De ontem,  imagens congeladas de pais e mães.

Todos amigos.

 

 

Todos.

 

Prazeres redescobertos ou anônimos,

Âncora de repouso  necessário,

Desejos carinhosos,

Voemos e reencontremos

Uns aos outros!

 

Todos!

Tudo!

 

 

Os avós dos filhos, bisavós de depois e assim vai:

“a criança é pai do homem”.

 

Perpetuação do ser.

Perpetuar é ser.

Perpetuar amigos.

 

Perpetuar.

Ser amigos.

Ancorar!

 

 

Sejamos tudo em cada um!

Sejamos todos!

Sejamos cada um.

As âncoras podem sair...

 

 

Se de nada esperavam alguns,

todos saíram insatisfeitos.

Uma pequena lágrima iria boiar  nos olhos,

Lágrima cordial,

Lágrima de todos,

Lágrima que tudo disfarçar pretendia,

Lágrima tensa, lágrima de cór,

Lágrima simplesmente.

 

Gota.

 

 

Escorrida, pretensa ou contida,

Dos olhos regados à polca paraguaia,

choravam todos uma pequenina que fosse,

Insatisfeita  e incômoda lágrima de coração.

 

De cór e coragem.

Desancorada.

 

O calor era tanto!...

Gotas de suor vinham e secavam.

 

Tal qual lágrimas presas nos olhos.

 

Desancorar!

 

Gotas!

 

 

Ah, esses voláteis corações!

Nada os teria satisfeito.

 

Tudo batia contra o tempo de cada um dos felizardos.

O tempo molhava e secava suores e lágrimas.

 

Rapidamente.

 

Âncoras em lugar sem mar!

 

Na fortaleza, insistiram  as delicadezas.

Gentis e mimadas, pretendiam satisfazer o desejo

Desejo de um e de todos.

 

Folhas de uva, pães de mel, duplas sertanejas, churrasco, arroz carreteiro.

 

Quanta confissão jogada ao vento...

Não havia tempo para içar corações alados e voláteis.

 

Leques, muitos leques ventavam das emoções, lágrimas e suores.

Úmidos.

Unidos!

 

Bailemos!

 

Ah, jovens enamorados!

Enamoremos!

 

Se essa rua, se essa  rua fosse minha,

Não mandava ladrilhar.

E as pedrinhas de brilhante

Cristalizavam amigos lá longe,

Muito longe, no céu

A voar, voar e voar!

Ancoravam pra sempre os corações,

Perto ou longe do mar.

Pra sempre.

 

E os corações

de todos e por tudo,

cada qual em seu voo,

Ficariam a lembrar, lembrar...

Prá sempre.

Até desancorar.

 

 

(lembrança de Campo Grande num final de semana em 13 de março de 2010)

Delicadezas todas-2010 em Campo Grande


Delicadezas Todas

 (Ana Lúcia – 15 de março de 2010)

 

 

No aeroporto,  meu nome vi.

No meu, vi o de todos.

E nós, nomes e todos, batemos acelerados.

 

 

Diversos voos, todos os corações.

 

Acima das nuvens,

Plainavam asas, corações e nós.

 

Pouso!

Pousemos,

Todos!

 

 

Aviões do tempo.

Vôos inomináveis de desejos.

 

Desejemos!

 

Delicadeza da segurança e bem querer.

 

Reencontremos!

 

Repouso.

Repousemos!

 

 

A jato, passado, presente e futuro.

Ansiedade dos quereres bem.

 

Voemos!

 

 

Cheguemos lá, bem longe no passado

E aqui, no maravilhoso presente que nos dão,

finquemos os pés.

 

Ancoremos!

 

Mas que se libertem os corações e que eles batam, batam até, até...

Liberdade a eles e aos nomes.

 

Anônimos!

 

Falas, risos, doces, músicas...

 

Voemos todos  muito alto!

 

Então, chegam as redescobertas.

Fisionomias cravadas nos avós e bisavós de hoje.

 

De ontem,  imagens congeladas de pais e mães.

Todos amigos.

 

 

Todos.

 

Prazeres redescobertos ou anônimos,

Âncora de repouso  necessário,

Desejos carinhosos,

Voemos e reencontremos

Uns aos outros!

 

Todos!

Tudo!

 

 

Os avós dos filhos, bisavós de depois e assim vai:

“a criança é pai do homem”.

 

Perpetuação do ser.

Perpetuar é ser.

Perpetuar amigos.

 

Perpetuar.

Ser amigos.

Ancorar!

 

 

Sejamos tudo em cada um!

Sejamos todos!

Sejamos cada um.

As âncoras podem sair...

 

 

Se de nada esperavam alguns,

todos saíram insatisfeitos.

Uma pequena lágrima iria boiar  nos olhos,

Lágrima cordial,

Lágrima de todos,

Lágrima que tudo disfarçar pretendia,

Lágrima tensa, lágrima de cór,

Lágrima simplesmente.

 

Gota.

 

 

Escorrida, pretensa ou contida,

Dos olhos regados à polca paraguaia,

choravam todos uma pequenina que fosse,

Insatisfeita  e incômoda lágrima de coração.

 

De cór e coragem.

Desancorada.

 

O calor era tanto!...

Gotas de suor vinham e secavam.

 

Tal qual lágrimas presas nos olhos.

 

Desancorar!

 

Gotas!

 

 

Ah, esses voláteis corações!

Nada os teria satisfeito.

 

Tudo batia contra o tempo de cada um dos felizardos.

O tempo molhava e secava suores e lágrimas.

 

Rapidamente.

 

Âncoras em lugar sem mar!

 

Na fortaleza, insistiram  as delicadezas.

Gentis e mimadas, pretendiam satisfazer o desejo

Desejo de um e de todos.

 

Folhas de uva, pães de mel, duplas sertanejas, churrasco, arroz carreteiro.

 

Quanta confissão jogada ao vento...

Não havia tempo para içar corações alados e voláteis.

 

Leques, muitos leques ventavam das emoções, lágrimas e suores.

Úmidos.

Unidos!

 

Bailemos!

 

Ah, jovens enamorados!

Enamoremos!

 

Se essa rua, se essa  rua fosse minha,

Não mandava ladrilhar.

E as pedrinhas de brilhante

Cristalizavam amigos lá longe,

Muito longe, no céu

A voar, voar e voar!

Ancoravam pra sempre os corações,

Perto ou longe do mar.

Pra sempre.

 

E os corações

de todos e por tudo,

cada qual em seu voo,

Ficariam a lembrar, lembrar...

Prá sempre.

Até desancorar.

 

 

(lembrança de Campo Grande num final de semana em 13 de março de 2010)

sexta-feira, 11 de maio de 2012


CRAQUELÊ





-Alô!   Quem é????

- Sou eu...

-A essa hora... Quem é?

- Eu. Não reconhece mais a minha voz?

- Acabei de acordar... Tô sonada ... quem ?

-Eu, Augusto.

-Não acredito... A essa hora? Me acordando? Não basta não me deixar dormir a vida toda?

- Não sabia o que fazer a não ser te ligar...não se preocupe, o prejuízo você põe na minha conta....

_Ligar pra que? Pra me acordar, pra não me deixar dormir nunca mais? Não dava pra me encher o saco mais tarde?

- Desculpe... Não sabia o que fazer...

- VOCÊ??? Sem saber o que fazer??? Tão seguro! O que você quer? Roubar o que restou de minha alma? Incomodar mais ainda o que sinto de mim mesma?

-Não, nada disso, só queria...

-Sei bem, só queria me acordar pra lembrar que nem ao menos posso dormir em paz!

- Nada disso...

- O caralho! Você quer continuar aquela conversa babaca de ontem, pra acabar ainda mais com o pouco que eu sinto de mim?...

- Nada disso... Eu queria...

- Você só fala isso? Sempre eu queria, eu ia, eu sonhava... Dá pra falar em algum tempo perfeito e acabado, planejado, no mínimo? Sem ironias ?

...Ok, você venceu... Não percebe que nem saí da cama, nem sei se estou acordada mesmo?

Mas já que ligou, quer saber, cara, você não passa de um sádico, destruidor de imagens... Aposto que nem se lembra do que fez ontem, antes de me deixar aqui, sozinha, depois de vinte e porradas de anos, nesta cama enorme... E agora me acorda com a porra  desta campainha estridente que você mesmo fez questão de gravar nesta porra de telefone... Você não passa de um chato!



.....

- Desculpe, tô meio que dormindo... Mas você não tem semancol.



-Olha, acho que a gente pode conversar, não foi nada do que você está pensando..



- Eu não tô pensando nada. Aliás, nessa hora da quase madrugada, depois de ontem... Nem penso... No meu devaneio (sim meu grande devaneio, só pode ser isto), você foi bem claro quando disse que já passei dos 50, que minha barriga só chegava perto do tanque e nada tinha a ver com “tanquinho”. Você deixou bem claro que meu caso era de “Extreme Makeover” . Aquele programa americano que reforma mulheres infelizes... Lembra disso?



-Bem...



- Lembra sim.  Quando disse que meus peitos não passavam de peitos e que “seios” você tocou há vinte e sei lá quantos anos , quando me conheceu e eu era virgem?  E quer saber – você adora saber -, agora que já me acordou pra encher o saco, vai ouvir mesmo. Você me avacalhou. Não considerou os porras de anos que dei sentimental, literal e sexualmente pra você. Fora os filhos que também dei a você, a mim, às famílias, sua e nossa. À sociedade. Às muitas horas de mamadas, de madrugada ou não... Cocôs em fraldas, choros, dores de barriga... Suquinhos, papinhas que você fingia fazer nas temporadas em casa de amigos... Um porre! Um porre tudo. Os amigos, os falsos suquinhos e papinhas.E os porres de cerveja, emendados com os próximos choros, fraldas, etc, etc... Uma porra só!



_ OK, sei dis...



- Então, se sabe, agora vai decorar.  D E C O R A R!!!  Entendeu bem? DECORAR!!! Entendeu bem mesmo??? Decorar pro resto da vida, nem que seja pra outra mulher menos idiota que eu! Escute bem: já acordei muito, mas muito mesmo, de madrugada, pra tirar meus peitos e agraciar pessoinhas com o leite que Deus me deu. Sim, morra de inveja. Deus, sabe-se lá por qual motivo bíblico, deu a mim o grandessíssimo privilégio de engravidar, parir e amamentar. Entendeu bem? Tá ouvindo ou já se acovardou? Foi a mim, mulher, que couberam esses privilégios. Tá ouvindo? Foi a mim que sobraram os peitos – isso mesmo, peitos e não “seios” – cheios de antes e caídos de hoje. Simplesmente porque Deus quis a mim como mulher e não a você. Tá ouvindo bem?



- Calma, tô aqui ainda e só liguei para...



-Nem quero saber. Cedo demais pra ouvir e tarde demais pra entender tudo o que você tem a dizer, depois de ontem, depois de tantos anos. Mais de vinte, muito mais anos de trepadas, partos e mamadas. Todos os leites são meus e por isso meus peitos estão caídos, como você insinuou e até pretendeu achar que eu precisava de uma plástica que você poderia pagar com o meu – meu, entendeu bem? - dinheiro, em prestações que, sabe-se como e, se desse, você me ajudaria a quitar... Irônico, não??? Você nunca, nunca quitou nada nesses anos todos. Você passou a vida devendo. Você não se enxerga! E por falar nisso, cadê o espelho que você quebrou ontem? Vamos diga? Agora é sua vez? Cadê o raio do espelho? Catou os cacos?



-Olha, eu nem...



-Olha??? Aonde? Você acabou com o espelho! Vou me olhar onde? Vou me olhar no espelho quebrado por você, só porque você resolveu tomar  coragem depois de tomar um porre, claro, e me dizer aquelas coisas que, nunca, ninguém me disse?... Cara, entenda que todos os dias, mas todos os dias mesmo, com exceção daqueles em que dei de mamar ou dos que estava de ressaca, depois das festas idiotas às quais eu ia acompanhando você – afinal, você precisava mostrar que tinha a seu lado uma mulher bonitinha, jovenzinha,  que sabia se vestir razoavelmente bem, conversar sobre qualquer assunto, conhecia política, música e, principalmente, falava mais de uma língua – enfim, todos os dias você monopolizava aquele espelho. Você brilhava no seu sistema solar em frente àquele espelho de um jeito tão, tão, tão... sei lá como, que nada mais, se refletia no espelho. Só você. Aliás, só o sol, porque você nem se enxergava. Era impossível alguém se ver naquele espelho. Excesso de luz! Eu, a lua, nua e crua!



-Calma, eu nem falei nada...ain...



-...ainda, você quer dizer. Nem precisa. Tudo que restou aqui foi sua imagem espalhada por toda a casa. Uma luz doída. Nem o espelho ficou porque você fez questão de quebrá-lo em muitos pedacinhos. Sim, pedacinhos. Bem pequenininhos, pra que se eu me olhasse, visse apenas minúsculas Betes. Minielisabetes. Betinhas. Bestinhas, como você sempre quis. Meia lua, arrasada, com ressaca eterna, sem capacidade de acordar e se ver inteira. Pronto. Falei. Aos cacos, mas falei. Agora, fale você. O que você quer a esta hora da manhã?



- OK. Se acalmou?



- hummmmm...



-Então, tem certeza?



- hummmmm... Fale logo, tô com sono...



- Liguei só pra dizer que contratei o Joca pra trocar o espelho que quebrei. Quero sair sem dever nada! Avise à Joana que ele deve ir lá pelas 11 horas. Se cuide, tá?



Toc. Telefone no gancho.



E eu, no gancho também. TPM, menopausa, peito caído, barriga no tanque. 50 anos.



Foi essa a big comemoração que recebi. Mas o porre... bem,  esse foi ele quem tomou.



Tentei voltar a meu querido e amado sono.

Sonhei que morava numa casa cheia de grama verde ao redor, o mar em frente e, entre o mar e a grama verde, a areia branquinha. Tudo interligado naturalmente.



A casa do sonho era também branca, delineada em azul nos seus acabamentos. Branca e azul. Colonial. Casa, grama, palmeiras, areia e  mar. Nesta ordem.



Eu estava na rede, me balançando, pra lá, pra cá. Um homem lindo, olhos verdes, cabelos pretos, lisos e soltos (floft, floft), chegava bem perto de mim e ia me beijar quando...



A porra do telefone tocou.

Trrrim, trrrim... alto e estridente. Saco.

Depois de forçadamente acordada e tendo de encarar minha ressaca moral, caí em mim. Não, caí de mim mesma e fui me olhar no espelho. Nem queria me olhar . Ia só escovar os dentes, como todas as trocentas manhãs depois dos meus 21 anos. Desta vez, esbofeteada pelo tilintar irritante do telefone, sabia que não iria encontrar o espelho que, infelizmente, me encarava há mais ou menos 20 anos. Claro, o espelho não era o mesmo de anos atrás. Nem eu mesma era a mulher que nele tentava se olhar há anos.



A briga tinha sido mesmo muito, muito feia, apesar das taças de pro- secco que bebemos.



Grandes intenções e muitas esperanças. No fundo, nem eu, nem ele queríamos beber nada, comemorar nada, relembrar nada, beijar ninguém. Mas...o álcool. Este velho aliado e inimigo conhecido.



 In vino veritas.



Ninguém resiste ao vinho e ao espelho. A lua tenta se refletir, lá de cima, em qualquer espelho d’água! Lua de qualquer tamanho.



Ninguém, a não ser os homens. Seres especialíssimos, centradíssimos, corretíssimos. Todos os íssimos. Principalmente quando querem acabar com a imagem lunar da mulher. Mais ainda quando essa mulher é aquela que representa seu espelho, sua verdade. Aquela que, depois dos tempos de beijos, reflete sua vida, carregada de fraquezas, fortalezas, vitórias e derrotas.



Bem, de frente, o espelho do banheiro estava quebrado em muitos pedaços. Não pude me olhar naquela manhã cinzenta. 



E se tentasse, iria me enxergar estrábica, como se fosse muitas Betinhas, muitas bestinhas. Idiotinha mesmo. “Ei, coisinha aí...vem cá!” A chatinha, a “coisinha”. “Oi, coisinha! Olha, aquela ”coisinha”  chegou. Como é mesmo o nome dela? É Coisinha, né?”



Por que razão resolvi achar que algo poderia ser restaurado entre mim e Augusto? Por que comprei as garrafas de champanhe e prosecco? E os aperitivos que ele trouxe?



Por que fiz tudo isso se já pressentia que nada serviria para trazer de volta todos aqueles anos vividos?

Por que ele veio cheio de aperitivos e preliminares?



Qual lugar comum me fez achar que  iríamos nos encarar, um ao outro, sem que nossas imagens estivessem invertidas? Qual de nós acreditou na imagem refletida?

O que foi servido primeiro: as pequenas doses de indiferença diária dos últimos anos como preliminares ou o prosseco esculhambado da noite passada?

Qual espelho, espelho meu, exclusiva e unicamente meu deu a mim a grande pretensão de achar que não tinha mais vinte anos, que nunca tinha amamentado, nunca tinha dado a luz a pessoinhas e delas nunca tinha trocado fraldas?  



Qual espelho já me tinha refletido aos cacos, sem ter sido quebrado? Quem me inverteu a imagem no antigo espelho? Qual espelho me mostrava como lua-metade?



Tinham-me acordado.



Augusto me tinha acordado para falar nada. Absolutamente nada que fizesse sentido ou que se fizesse sentir. Seu problema nem era consertar o espelho e sim substituir o que tinha quebrado.



Não estava errado. De nada me  adiantava remendar os pedacinhos do espelho antigo. Nem a ele adiantava remendar. Para Augusto o espelho era craquelê e se eu não gostasse, melhor mesmo era trocar aquele por outro.



Os caquinhos do espelho eram, para Augusto, composição artística.



 Craquelê.



Os pedaços a que venerável Augusto me reduziu nunca mais poderiam ser recompostos.



Sobrevivi em caquinhos!



Para mim, eu não era arte. Era apenas quebra-cabeça difícil de encaixar, resolvido pela paciência da idade que nem eu e nem Augusto tínhamos mais. Nem paciência, nem idade de paciência.



Nada de reverências a nenhum Augusto.



 As idades do homem e da mulher são muito diferentes! Somos distintos em nossas relevâncias.



Por exemplo, eu não ligaria para Augusto, acordando-o cedo, depois de uma noite de champanhes e proseccos, pra falar merda. Me incomoda muito esta mania que ele tem de se achar solene e moço. Augusto pensa que continua juvenil.

Continua juvenil? Jovem? Ridículo?



Solenemente idiota, isso sim.



Que direito tem ele de me dizer que eu nem precisaria escolher este ou aquele vestido, esta ou aquela camiseta, calça jeans, baby-doll, se no estado físico em que me encontro nada me serviria mesmo? Segundo ele, claro!



- Tanto faz. Nessa altura da vida, você tem mais é que ficar vestida com roupas à vontade.



Augusto, do alto de sua majestade, me disse isso várias vezes, mas eu poderia ter dito o mesmo a ele. Várias vezes.



Não disse. Nem quando estava de salto alto.

Delicadezas...



Digamos, cá entre nós, que “à vontade” quer dizer moletom, certo?

 Foi assim que recebi a “ofensa”, antes da briga. E é assim que quero que ele entenda: todos nós vestimos “roupas à vontade, depois de certa idade”! 



No mais, poderiam ter sido risos... Muitos risos.



Não foi.



Foi briga e foi feia. Foi briga de alguns-quase-todos   anos jogados nas caras de um e de outro. Triste, muito triste mesmo.



Taça voou. Outra taça voou de volta.



Prosecco se esparramou em mim e nele, encharcando os todos, muitos anos de convivência. Alguns anos de amor, outros de carinho. Os finais, de raiva. Todos encharcados de prosecco.

Pensando bem, houve um brinde à altura dos anos convividos.



Por isso, eu mesma, Bete, Betinha, Coisinha, atirei com toda a força de minha alma a taça que segurava na mão e, má pontaria, quebrei o espelho atrás de Augusto. Naquela altura, se me lembro bem, estávamos no banheiro. Sim, quase certeza de que era o espelho do banheiro. O espelho mais íntimo, que compartilhara um bocado de anos entre nós.



Augusto e eu.



Disse que fui eu quem atirou a taça?

Disse mas não tenho certeza do fato.

No meu coração, Augusto já havia atirado várias taças, uma por dia, e quebrado o espelho.



Caco por caco.



Acho que, em seu íntimo, Augusto sabe que foi ele quem quebrou o espelho depois de cada uma das taças arremessadas, cheias de pequenas maldades destruidoras da imagem que eu tinha de mim mesma.

Ele, Augusto, soberbo, inteiro. Taça intacta.

 

Por isso me ligou cedinho. Apenas pra avisar que mandaria trocar o espelho. Nem pensou em consertar.



Pretensioso.



Este é Augusto... Taça de nada. Vazia e inquebrável.

O espelho sem reflexo.



Eu, Bete, tentaria consertar, mas não me deixaram...

Nem me lembro se atirei aquela taça contra o espelho. Nem sei se bebi aquele prosecco no banheiro, antes de ir para o quarto.



Quando ele, o telefone, irritantemente, tocou, só me quis dizer que haveria uma troca de espelhos. Tal qual troca de fraldas de madrugada, em socorro ao choro infantil.

Meras trocas: fraldas, espelhos, pessoas. Meras trocas.



No mais, eu que invertesse os sentimentos e imagens. Que invertesse a vida que eu mesma fiz e jorrasse tantos proseccos quantos necessários para comemorar cacos de espelhos.

Taças podem ficar inteiras. Espelhos se quebram.

O problema é meu!



O azar é de quem não enxerga.