quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

De Ana e Anas

Sobre meus olhos corriam apenas tetos e mais tetos. A velocidade não era alucinante, mas possuia um ritmo esquisito, feito de curvas, que não me deixavam pensar direito. Nas laterais, alternavam-se paredes, portas, curvas de paredes, mais portas. No ar, vozes se misturavam. Vozes conhecidas, íntimas, que se destacavam das vozes estranhas. Estas, distantes. Aquelas, bem próximas, mas não tão próxima como o que ainda estava por vir.
E o cheiro monótono que tentava me fazer adivinhar o que poderia acontecer.
De repente, uma porta maior, daquelas que têm duas abas, tipo salloon de caubói.
Fui literalmente entrada por aquela porta e colocada no centro de uma sala enorme. Entrei no centro do meu mundo que estava dolorido. A cada instante, minuto, segundo, décimo de segundo, tudo se resumia em dor. Dor branca e vermelha, interminável. Ia e vinha, branca e vermelha.

Pessoas mascaradas de azul-esverdeado subiam em mim, aos gritos de "força!". Gritos meus também .
De repente, as vozes íntimas estavam distantes e as vozes estranhas começavam a ficar cada vez mais íntimas, pelo tempo e pela dor compartlhada - branca e vermelha. E a força continuava colada ao suor, ao medo, à expectativa.
Então, a esperança e o choro que explodiram azuis :

- É uma menina!

Eu já sabia, e seu nome será Ana, como o meu. Só ela sabe o que passei nesse tempo de casulo em minha barriga. Ela e minha mãe, também Ana, também mãe, sabiam...

De volta ao sono, às paredes alternadas, ao teto, ao cheiro, às vozes distantes e à aproximação das vozes íntimas. Meu choro e o choro de Ana. De Anas que, agora, se conheciam e entendiam o elo que une todas as Anas do mundo.

Lá no cantinho do quarto, onde minha Ana dormia, olhar entre as grades, pensamentos vagos , estava ela: Mariana. Minha outra Ana, antes Maria. A primeira e a última certezas de minha condição feminina. A criança é mãe da mulher.

Ao centro, observando desconfiado aquele universo feminino de Anas, estava ele, Ricardo.
Sábio, já previa as chuvas e trovoadas que teria de enfrentar. Eram muitas Anas !

Um comentário:

Unknown disse...

Que liiiiiiindo! Quase chorei!
Por favor, escreva mais, mãe!
Beijos.