sábado, 8 de agosto de 2009

Mesa da cozinha – Ou BRANQUINHA - I

O regaço

Tão branquinha e tão rachada... E não faz tanto tempo. Ou faz ?
Seria “o regaço de todos. A mais inocente e dócil, calma, sábia, política”. Política sábia? Sábia política. Bem aventurados os pobres de coração porque verão a Deus.”? Quem disse isso ?
Algum hyppie , certamente. Cheio de flores e corações, cantando mantras indianos.

Não era tão assim.

Nem tudo que é tão branquinho e tão rachado é também tão cheio de histórias. Histórias rachadas ou completas.

Ou então, nem tudo que é tão branquinho quer ter tanta história assim. Ao menos para contar. Porém, a mesa é testemunha. Testemunha histórica, diriam hoje, com arquivos a serem abertos.

Falam as madrugadas. Quase três ou quatro horas da manhã. Só mulheres numa só época.
Só mulheres?
Não, só garotas-meninas: “My sweet Lord”, “Yellow River”, “Hey Jude”.
E Chico, o Buarque de Holanda (“quero ficar no seu corpo feito tatuagem...” Quem já me falou assim? Quantos.....). Oras, me esqueci do Roberto. Aquele do ciclo de Robertos. O grande Roberto. O Carlos. Tão grande que vários outros “Robertos” apareciam para cantar todas as “Emoções” e/ou os “Detalhes”. Uns trouxeram o “Café da Manhã”, outros falaram sobre o côncavo e o convexo... Eu passei pela estrada de Santos, onde nasci e, quem sabe, me encontrei no regaço de todos.

“Quando você se separou de mim, quase que a minha vida teve fim...” “Eu voltei, voltei para ficar, porque aqui, aqui é meu lugar”. Propostas. Caetano. Rock progressivo, Pink Floyd, Santana, James Taylor (“When you’re down and troubled, and you need a helping hand... just call me: you’ve got a friend...”).

E o sexo... na cozinha. No granito, ou mármore, branco ou cinza (que importa?) rachado. Quem diria, não? A mais inocente e dócil. Será que por isso mesmo não discernia o mármore do granito, o cinza do branco, o inteiro do rachado, a mesa da cama.

Ninguém sabe, mas nos 70, ( os anos),acontecia strip-tease. Tinha whisky falsificado em cima da mesa: misturavam-se amigos, primos capixabas, sobrinhos. Baita festa à noite, o whisky bom escondido atrás do filtro. Whisky bom??? Só rindo. Sorrindo. Seringas para a mistura (da bebida, que fique claro!) e rola bebida....que não passava de água.

E pai achando graça, afinal, não fazia mal a ninguém. Nem a bebida nem o pai.

Só Branquinha, a tal mesa da cozinha, sabia que tudo então não passava de farsa: a bebida, os amigos, os lugares frequentados, a conversa com irmãos. Tudo era hipocrisia e repressão.

Menos o pai e a mãe, que só eram pai e mãe. E tudo isso bastava. Pra quê mais?

Ela, Branquinha, rachada desde então, só observava (testemunhava). Sim, porque naquela época, falar não era oportuno ou, no mínimo, falar era porta (e não mesa) aberta para muitas perguntas e fechada para todas as respostas. Ninguém queria ser porta ou mesa.

E assim, foi tudo que aconteceu à sua volta: cada adjetivo, cada substantivo, cada advérbio e, principalmente, cada verbo era totalmente vigiado e analisado parcialmente.

Ai de quem falasse ou se expressasse. O verbo não podia existir.

Principalmente, ai de quem falasse ou se expressasse de modo honesto.
Pensando bem, verbo e advérbio não podiam conviver, muito menos coexistir naquele tempo. Tudo podia ser mal interpretado.

Até Branquinha tinha de ter uma cor neutra e só podia testemunhar. Tinha de ser cinza.
E nem se sabe se havia programa de proteção às testemunhas... Branquinha cinzenta.

De preferência e pensando bem, Branquinha e todos tinham de ter cor neutra. Nem cinza, nem branco, como convinha, pois nunca, ninguém enxergou definida a cor do outro.

Era questão de enxergar e não de falar. Daí que a Miopia predominava.

Branquinha, se falasse, diria: ”- Não opino, não vejo, não sinto .. Só testemunho.Um dia, alguém fala sobre isso.” E nem se sabe se havia programa de proteção às testemunhas...

Ainda bem. Sorte nossa que só queríamos ouvir Beatles, Rolling Stones, Chico, Caetano e, claro, Roberto (o Carlos). Este último, ouvíamos sem confessar, já que era menos, muito menor aos olhos e ouvidos dos ”míopes superiores”.

Em volta da Branquinha, infeliz daquele que demonstrasse qualquer “ai” honesto. Ninguém sabia o que viria depois, ou se havia alguém com ouvidos (“juris et de jure”).

E ninguém discutia. Sem programa de proteção à testemunha!

O SNI!

Vai saber qual seria a interpretação dos atos e das falas, mesmo que fossem tão juvenis.

Mesmo que o primeiro “ai” fosse de prazer, de simples delícia de amor. Carinho de namoro que o irmão mais velho, aquele do “carisma do pai, bem amado e perspicaz, belo e imparcial”, poderia flagrar. “Cana nela ( e não, “canela”)!

Branquinha, certamente, esqueceria que tinha de ser cinza e ficaria vermelha de raiva, de vergonha, cor de canela antes da queima. Só que ela era mesmo cinza e não havia programa de proteção à testemunha.

Era a repressão por todos os cantos. Da casa, da porta, da sala, da cozinha, da mesa, das pessoas.

“Cada qual com seu jeito. Cada qual com sua maneira de ser “, pensaria Branquinha, se pensasse. Ou falaria, se falasse.

Não era o caso.

Para nosso desespero, nem falava, nem pensava. Nem poderia.
Naquele tempo, ninguém podia pensar, achar alguma coisa, quanto mais falar.

Mas, todo mundo fazia. Porque tudo era novo e jovem e, sendo assim, tudo pode.

Não fosse a imaginação poética dos mais velhos, Branquinha, na realidade, só testemunhava. Não falava, não pensava. Apenas via e via muito.

Que merda... Não havia programa de proteção à testemunha!

E, ainda bem que só via. Mais que isso: testemunhava, apesar da falta de proteção.

As sensações e os sentimentos não eram seus, mas dos outros: donos, filhos, netos sobrinhos, tios, amigos, que sentiam, pensavam, transferiam e, principalmente, pensavam, por ela. Ela mesma, não queria nada disso. Ela não tinha querer.

Não passava de uma mesa. Era testemunha sem programa de proteção, presenciou, deixou que se sentassem à sua volta, mas nunca foi uma porta. Jamais abriu, para que o vento carregasse o que estivesse no caminho ou se fechou, para impedir que novos fluidos viessem.

Os tempos passaram. O tempo passou também.

Não foram permitidas à mais gentil das pessoas as manifestações, pois sendo ela, a gentil, o regaço, inocente, dócil, sábia e política, à Branquinha só lhe restou esperar que ficasse em sua casa. Não aconteceu. Como não aconteceram muitas outras esperanças que queria em sua casa. Pai e Mãe especial e principalmente.

Orações simples (a Deus) conectadas por conjunções, adjetivadas, adverbiadas, complementadas nominal ou verbalmente. Adoradas como deuses e para sempre oradas. Pretéritos perfeitos de uma vida Branca, em mármore, em granito. Rachadas para dividir amor em seis. Conta dos filhos. Acinzentadas pela mistura do negro e do branco à beira-mar, ilustradas ao fundo pelo lindo verde-mar-campo. Testemunhando outros ais, outras músicas, ares, pessoas, repressões ou não.

Agora, nem precisa do programa de proteção à testemunha. O tempo a libertou desse fardo, deixou-a como sempre deveria ter sido. Mesa.

Bem que Branquinha merecia essa liberdade de ser e estar!

Nada disso importa. Renovaram-se portas, cadeiras, paredes, relógios, camas, TVs, travesseiros e até mesas. Mas, nunca se renovou a Branquinha. Que nem era tão branca assim, que nem era tão cinza assim, que nem era tão rachada assim, que nem testemunhou tanta coisa assim. Que nem precisava de programa de proteção às testemunhas.

E, de casa em casa, de canto em canto, procura-se “A Branquinha”.

Ninguém, ao que se saiba, consegue encontrá-la. Fala-se apenas sobre ela, sobre seus sentimentos que nunca existiram, sobre os fatos que nunca testemunhou de verdade, sobre sua cor indefinida, sobre seu racho.

Como os sentimentos e narrativas dos evangelistas, profetas. Todos sabem que houve, embora ninguém saiba a verdade e se todos sentiram do mesmo modo.

Os evangelistas e os profetas, assim como os artistas, nunca foram protegidos por programas... Nunca testemunharam nada. Nem Branquinha.

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