Mesa da cozinha – Ou BRANQUINHA - II
Esperanças , expectativas e espelhos
Não era em torno da mesa que tudo se conciliava.
Não era pelo bem-amar, pela globalização ou perfeição que Branquinha se tornava o elo de todos e tudo.
As expectativas de conciliação eram mesmo irritantes. Ninguém é perfeito, ninguém se identifica com uma simples mesa, sem graça, no meio da cozinha, apenas porque os outros acham, pensam e esperam que ela, a porcaria da mesa, seja elo de algo ou de alguém ...
Branquinha nada mais era do que concretização desses sentimentos controvertidos e inacabados.
Branquinha há muito ficou no passado e, agora, tentam libertá-la desta antiga modernidade pragmática que tinha adquirido faz tempo!
Significante e significado misturam-se numa única explicação científica: “vim para servir! Vim para ser mesa de mim. Estou cheia de ser redonda, forma fácil de conciliação.”
É o que esperavam dela... Pobre expectativa.
Ela, por si, queria os elos sinceros das retas, sem meandros, sem hipocrisias dos sofrimentos vividos dos outros, pelos outros e para os outros.
“Retas têm elos ?” Iria se perguntar pela existência afora.
Ela, por si, não queria gritos e choros. Mas, quantos não percebeu, mesmo sem pedir ou pretender?
Na praia, existiria por si mesma, adequada à paisagem calma, às vezes fria, às vezes quente, quase sempre em neblina! Mas, teria uma existência só dela. Nada englobava ninguém.
Ah, como tudo à sua volta era tão longe, tão fora de seu alcance. E, como tudo à sua volta parecia aos outros tão em ordem, bem colocado, pacificador ...
Por que?
Talvez, fosse confundida como algo superior, cujo dever ser era promover a paz em nome de Deus.
De que paz falavam? De que responsabilidades falavam? De qual deus falavam?
Não era simplesmente uma mesa? Aliás, uma mesa, nem quadrada, nem redonda , cor indefinida, surda e muda... Em sua volta - volta?
E as retas, onde ficavam ou aonde iam? - , em torno, só olhares. E ela desconhecia o passado que pertencia a tantos outros e não a ela mesma, que nada compreendia de verdade.
Pretensões e expectativas de compactar, mas não compactuar por não serem suas, amores e qualidades de irmãos e pais. Perfeição de união que nem esperava atingir e ninguém perguntou se assim queria. Só exigências.
Branquinha não era elo.
Branquinha era apenas ela mesma e, por isso, foi levada para longe a observar o mar, cujas ondas vão e vêm, sem nunca serem as mesmas.
Então, no movimento de todos, como as ondas do mar, pelo testemunho de todos e tudo, Branquinha tornou-se ela e, paradoxalmente, confundiu-se com um pouco de cada um.
Bela, se assim nascera; graciosa e cheirosa porque a fluidez é necessária; feminista e acreditando-se justa, quando convinha; poeta e inteligente, pois que do contrário, ninguém sentaria ao seu redor; bem amada, para dar sentido à sua existência.
Tudo, como um rio, desaguando na água da pretensão, criativa e esperançosa da conciliação. Dos outros.
Responsável demais, essa Branquinha, que não passava de mesa de mármore !
Mármore muito duro, mas que, num certo tempo, rachou-se.
Agora, lá, olhando o mar e respirando a maresia, Branquinha acredita-se o regaço e até fala como se assim o fosse.
É mais sincero este espelho. Sente-se gentil, como a bruma, inocente e dócil, como o entardecer de verão. Calma, de olhos fechados (mesa tem olhos?), aguardando a brisa à beira-mar...
Política, já que as discussões inúteis levam ao nada. À espera da pureza de coração que, certa e maternalmente, poderá atingir se continuar a contemplar o mar, sentir a brisa e ouvir o burburinho das folhas na montanha que a levam, sabe Deus, aonde...
Tão confundida é Branquinha que vê o reflexo daquilo que talvez nem seja ela ou dela.
Tão precisa e firme é Branquinha. Quem sabe, seu espelho mostre o que todos nela queiram mirar.
Ela, de frente para o mar, apenas reflete, enquanto a bruma envolve seus pés de ferro, pintados de branco, fincados no chão desconhecido.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário