Tristeza pelos poros
Aperta bem, chora de dor e te alivia.
Tudo no final se cicatriza.
Estou triste também por todos os poros.
Ligo para ti e penso se tenho este direito.
Penso se tenho este direito democrata de te ligar
ou de ligar para quem quer que seja.
Direito de eu ficar triste?
Direito de tu ficares triste?
Ao menos, em minha quietude, recebo e aceito o supremo direito de estar só.
E calado, pergunto:
Qual direito existe em ficar triste ?
Qual direito tens de ficares triste?
Qual direito tenho, por Deus, de ficar triste....
Na democracia dos sentimentos restam mágoas.
Mágoas suspensas,
engasgadas em cada contorção de fingimento.
Mágoas suspensas
pelas palavras grosseiras, pelos tapas dados,
pelos tapas ditos.
Pelas palavras malditas.
Tapas escrachados na face vermelha de quem os levou.
Fora o arrependimento...
Tapas e mágoas que surgem com algum carinho.
Carinho do tempo, da circunstância, do ódio puro.
Pode ser amor, pode ser ira, qualquer pecado ou perdão.
Não sou o que sou. Ninguém o é.
Nem tu és nada do que estapeavas ou do que eras estapeado.
Tapas e palavras democraticamente dados e recebidos.
Vermelhos de vergonha!
Hoje, sinto apenas o resto de mim e admiro o pouco do resto que veem de mim.
A ti, nem enxergo, nem ninguém te enxerga.
Ferida cicatrizada, purulenta e antiga.
Seria tão difícil assim carregar nos ombros cansados o passado empacotado?
Sentirias falta de mim?
Falta dos outros?
Falta do resto da sombra de teu sorriso?
A sombra seria resto de fardo pesado?
A sombra seria falta de nunca teres sido utilitário em tempo passado e recomposto?
A sombra seria resto e nada mais.
Os poros transpiram, suam abandono.
Os poros cheiram mal...
Tristeza é fedor.
Tristeza de perceberes que não és o que pretendias.
Pus.
E dói.
Dói muito!
A tristeza quanto mais fétida, quanto mais dolorida, mais rápido a cura é suplicada.
Os poros arejam-se, libertam-se e clamam pela democracia:
Não quero ser triste, por isso eu, poro, purgo minha existência,
Ligo para ti, ferida, e proclamo a quem quer que aceite o meu, o nosso direito.
Meu único e exclusivo direito: amar sem dor !
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Branquinha - A Mesa - Regina Célia Dayeh
A Mesa - Branquinha – Regina Célia
(uma visão dos que compartilharam)
Cada casa é um mundo. A minha, a do meu berço, um mundo diferente, com hábitos diferentes, comidas diferentes, cheiros diferentes, vindos de muito longe. Um mundo à parte dentro do universo.
Comecei a conhecer o seu mundo em torno dela. Pela primeira vez que entrei na sua casa nova minha atenção se voltou de imediato à minha direita, meu olhar ali se fixou. Logo na entrada, a foto na parede, éramos nós, ainda e sempre. Dando boas vindas ao tempo que nos acompanha.
À esquerda, o espaço reconstituído. Ela, no centro. Tentativa de manter estático no tempo o espaço passado.
Olhei por alguns minutos, quieta, tentando entender o que vinha do meu coração. Lágrimas inevitáveis.
Entendi, então.
Ela não poderia estar em outro lugar senão na cozinha. Porque é nesse espaço que preparamos o alimento do corpo, e era naquele espaço - agora reconstituído - que começamos a criar e alimentar muito do que somos hoje.
Alta madrugada, foi em torno dela que a curiosidade mútua se revelou, entre uma bebida e outra, entre uma gargalhada e um choro incontido, entre um cigarro e um copo de leite. Sensibilidade à flor da pele, quente, adolescente, na superfície fria. No seu mármore, terreno fértil, muito dessa amizade tão cara, tão querida foi semeada.
No início eram tão poucas as experiências que trocávamos, porque tão pouca era a idade, que eram mesmo sonhos que nós delineávamos, com riqueza de detalhes. E ela tudo ouvia, em tudo nos apoiava, firme, e nos aguardava, ansiosa e generosa, a cada véspera de prova, a cada fim de festa, a cada confidência trocada.
As pessoas em torno dela me eram agradáveis, acolhedoras, como são até hoje. Recebiam-me com a familiaridade daqueles que já a frequentavam há muito tempo. Percebi, desde logo, e desde logo busquei compartilhar da acolhida em torno da mesa, com o mesmo afeto que recebia.
Mesa é lugar sagrado, dizia-se em minha casa. Não se canta nem se assovia. Mas é lá que se come e se compartilha o alimento, hora em que a família se aproxima, dando conta de como foi o dia e de como se pretende o dia de amanhã. Mas naquele seu mundo, a mesa branquinha tinha um outro significado, uma outra sina, além daquela que lhe era própria. Ao seu redor e sobre ela idéias e conjecturas fluíam. Iniciantes no ofício de pensar e questionar; era junto dela que exercitávamos nossas filosofias.
Então, como que por mágica, também ao redor dela, amigavelmente, sentavam-se poetas, escritores, músicos, filósofos e todos aqueles que nós, na nossa imaginação, quiséssemos convidar. Era muita gente, e ela suportava a todos, imóvel, ponto de referência. E a cada encontro o nosso sentir se acrescia de todas as idéias malucas, formuladas ao som dos nossos compositores e cantores preferidos. Penso até que ela se arrepiou várias vezes ao ouvir as nossas besteiras, intimidades, chegando a ruborizar seu mármore acinzentado. Mas nós não víamos isso, preocupadas que estávamos em nos tornar adultas. Muitos dias, muitas noites e madrugadas etílicas ela nos suportou.
Ao chegar na casa nova, ao perceber que a minha memória se enganchava no espaço onde ela ficava, voltaram juntos todos aqueles que a rodeavam. O pai, que ria da nossa ignorância e nos indicava o caminho dos livros, a mãe de delicadeza inesquecível, as irmãs, os irmãos, vestibular, a faculdade, as festas, o reveillon, o hino nacional, a conversa varando a madrugada, o violão, o piano, o noturno de Chopin, discos voadores, gatos falantes, os namorados, os beijos, o sexo, chá de cozinha, casamentos, filhos, crises, separações, brigas, reconciliações.
De certa forma eu também a adotei, ou fui adotada, não importa muito a ordem das coisas, porque não iria mesmo alterar o produto. O produto somos nós. Orbitamos, inconscientes, ao seu redor, até hoje.
Não escrevo como memorialista ou nostálgica. Falo do presente tão presente, junto da mesinha branca, que está dentro de nós. Persistimos no mesmo espaço, rodeando-nos, nos estranhando e nos reconhecendo. Pouco importa se a mesa está, importa sim que ela é, ainda e sempre.
Fissuras, rachaduras, arranhões, são inevitáveis, na mesa e nas nossas vidas. A pátina do tempo (desculpe o chavão!), as rugas que contam histórias, o descascado da tinta que só faz aparecer a estrutura, aquilo que é, que apóia, que segura, indiferente a cor.
Cada casa é um mundo à parte dentro do universo. A branquinha habita nosso mundo, nossa casa-amizade, transcende o espaço e a matéria. Ao escrever sobre ela, estou ao redor dela, olhando para você numa madrugada qualquer, dando risada e falando bobagem, bebendo uísque e fumando, entre choro e filosofias, entre poesia e prosa, falando da vida.....ela, testemunha de tudo isso, hoje, tem muita história para contar !
(uma visão dos que compartilharam)
Cada casa é um mundo. A minha, a do meu berço, um mundo diferente, com hábitos diferentes, comidas diferentes, cheiros diferentes, vindos de muito longe. Um mundo à parte dentro do universo.
Comecei a conhecer o seu mundo em torno dela. Pela primeira vez que entrei na sua casa nova minha atenção se voltou de imediato à minha direita, meu olhar ali se fixou. Logo na entrada, a foto na parede, éramos nós, ainda e sempre. Dando boas vindas ao tempo que nos acompanha.
À esquerda, o espaço reconstituído. Ela, no centro. Tentativa de manter estático no tempo o espaço passado.
Olhei por alguns minutos, quieta, tentando entender o que vinha do meu coração. Lágrimas inevitáveis.
Entendi, então.
Ela não poderia estar em outro lugar senão na cozinha. Porque é nesse espaço que preparamos o alimento do corpo, e era naquele espaço - agora reconstituído - que começamos a criar e alimentar muito do que somos hoje.
Alta madrugada, foi em torno dela que a curiosidade mútua se revelou, entre uma bebida e outra, entre uma gargalhada e um choro incontido, entre um cigarro e um copo de leite. Sensibilidade à flor da pele, quente, adolescente, na superfície fria. No seu mármore, terreno fértil, muito dessa amizade tão cara, tão querida foi semeada.
No início eram tão poucas as experiências que trocávamos, porque tão pouca era a idade, que eram mesmo sonhos que nós delineávamos, com riqueza de detalhes. E ela tudo ouvia, em tudo nos apoiava, firme, e nos aguardava, ansiosa e generosa, a cada véspera de prova, a cada fim de festa, a cada confidência trocada.
As pessoas em torno dela me eram agradáveis, acolhedoras, como são até hoje. Recebiam-me com a familiaridade daqueles que já a frequentavam há muito tempo. Percebi, desde logo, e desde logo busquei compartilhar da acolhida em torno da mesa, com o mesmo afeto que recebia.
Mesa é lugar sagrado, dizia-se em minha casa. Não se canta nem se assovia. Mas é lá que se come e se compartilha o alimento, hora em que a família se aproxima, dando conta de como foi o dia e de como se pretende o dia de amanhã. Mas naquele seu mundo, a mesa branquinha tinha um outro significado, uma outra sina, além daquela que lhe era própria. Ao seu redor e sobre ela idéias e conjecturas fluíam. Iniciantes no ofício de pensar e questionar; era junto dela que exercitávamos nossas filosofias.
Então, como que por mágica, também ao redor dela, amigavelmente, sentavam-se poetas, escritores, músicos, filósofos e todos aqueles que nós, na nossa imaginação, quiséssemos convidar. Era muita gente, e ela suportava a todos, imóvel, ponto de referência. E a cada encontro o nosso sentir se acrescia de todas as idéias malucas, formuladas ao som dos nossos compositores e cantores preferidos. Penso até que ela se arrepiou várias vezes ao ouvir as nossas besteiras, intimidades, chegando a ruborizar seu mármore acinzentado. Mas nós não víamos isso, preocupadas que estávamos em nos tornar adultas. Muitos dias, muitas noites e madrugadas etílicas ela nos suportou.
Ao chegar na casa nova, ao perceber que a minha memória se enganchava no espaço onde ela ficava, voltaram juntos todos aqueles que a rodeavam. O pai, que ria da nossa ignorância e nos indicava o caminho dos livros, a mãe de delicadeza inesquecível, as irmãs, os irmãos, vestibular, a faculdade, as festas, o reveillon, o hino nacional, a conversa varando a madrugada, o violão, o piano, o noturno de Chopin, discos voadores, gatos falantes, os namorados, os beijos, o sexo, chá de cozinha, casamentos, filhos, crises, separações, brigas, reconciliações.
De certa forma eu também a adotei, ou fui adotada, não importa muito a ordem das coisas, porque não iria mesmo alterar o produto. O produto somos nós. Orbitamos, inconscientes, ao seu redor, até hoje.
Não escrevo como memorialista ou nostálgica. Falo do presente tão presente, junto da mesinha branca, que está dentro de nós. Persistimos no mesmo espaço, rodeando-nos, nos estranhando e nos reconhecendo. Pouco importa se a mesa está, importa sim que ela é, ainda e sempre.
Fissuras, rachaduras, arranhões, são inevitáveis, na mesa e nas nossas vidas. A pátina do tempo (desculpe o chavão!), as rugas que contam histórias, o descascado da tinta que só faz aparecer a estrutura, aquilo que é, que apóia, que segura, indiferente a cor.
Cada casa é um mundo à parte dentro do universo. A branquinha habita nosso mundo, nossa casa-amizade, transcende o espaço e a matéria. Ao escrever sobre ela, estou ao redor dela, olhando para você numa madrugada qualquer, dando risada e falando bobagem, bebendo uísque e fumando, entre choro e filosofias, entre poesia e prosa, falando da vida.....ela, testemunha de tudo isso, hoje, tem muita história para contar !
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Coração Valente
Ligeiramente zonza, sua cabeça buscava compreensão do inexplicável.
Ligeiramente trêmulas, suas mãos procuravam segurar o disperso.
Um pouco míopes, seus olhos tentavam traçar impressões.
Assim como os olhos, mãos e cabeça percebiam o insustentável.
Nada era traçado.
Feliz, seu coração disrítmico,
Imperceptível às impressões, tremores e tonturas,
Simplesmente batia:
Tum, Tum-Tum, Tum...
E desse modo continuou.
Ao primeiro beijo
À primeira raiva
Ao último suspiro
Batendo sem compasso,
Esmurrando sem comparsas,
Vibrando e desfibrilando.
Tudo em sua vida era apenas coração contínuo
Que, tonto, tremia e nada segurava.
Só batia e batia: Tum-tum, Tum, Tum...
Arritmia.
.........................
Parada cardíaca.
Ligeiramente zonza, sua cabeça buscava compreensão do inexplicável.
Ligeiramente trêmulas, suas mãos procuravam segurar o disperso.
Um pouco míopes, seus olhos tentavam traçar impressões.
Assim como os olhos, mãos e cabeça percebiam o insustentável.
Nada era traçado.
Feliz, seu coração disrítmico,
Imperceptível às impressões, tremores e tonturas,
Simplesmente batia:
Tum, Tum-Tum, Tum...
E desse modo continuou.
Ao primeiro beijo
À primeira raiva
Ao último suspiro
Batendo sem compasso,
Esmurrando sem comparsas,
Vibrando e desfibrilando.
Tudo em sua vida era apenas coração contínuo
Que, tonto, tremia e nada segurava.
Só batia e batia: Tum-tum, Tum, Tum...
Arritmia.
.........................
Parada cardíaca.
sábado, 5 de setembro de 2009
Expectativas
Quando era muito criança, ficava à frente da telinha em preto e branco,
Feliz, bastavam-lhe as imagens.
As cores, estas viviam em sua cabeça.
Músicas, séries bobas, shows e festivais.
Adorava.
O que acontecia em volta, nem percebia.
Em preto e branco, em cores.
Uma boba séria e jovem.
Mas, mesmo sem pressentir o ciberespaço,
E ainda que tenha visto o homem mais velho pisar na lua em preto e branco,
Duvidou.
Duvidou da humanidade, da família.
Duvidou dos pais, avós, tios, irmãos, sobrinhos, primos...
Ficou muito triste quando percebeu que deveria duvidar dos amigos.
Então, sofreu.
Quando era muito criança, ficava à frente da telinha em preto e branco,
Feliz, bastavam-lhe as imagens.
As cores, estas viviam em sua cabeça.
Músicas, séries bobas, shows e festivais.
Adorava.
O que acontecia em volta, nem percebia.
Em preto e branco, em cores.
Uma boba séria e jovem.
Mas, mesmo sem pressentir o ciberespaço,
E ainda que tenha visto o homem mais velho pisar na lua em preto e branco,
Duvidou.
Duvidou da humanidade, da família.
Duvidou dos pais, avós, tios, irmãos, sobrinhos, primos...
Ficou muito triste quando percebeu que deveria duvidar dos amigos.
Então, sofreu.
Momentos
Naqueles poucos momentos,
Quase minutos, quase segundos
Que seus enormes olhos verdes
Puxados
Encontravam-se com os meus,
Estranhos e castanhos olhos,
Sentia-me atraída a eles e por eles
Olhos e mãos, pernas e corpo.
Naqueles poucos minutos, quase segundos,
Hoje, raríssimas lembranças,
Reminiscências, longe, muito longe...
Sinto-me estranha do que possa ter sentido;
Quase esqueço.
Penso, aperto os olhos,
Até que cheguem perto de ficarem verdes.
Mas o pensamento é distante e estranho,
E o tempo vivido é tão saudade somente
Que o silêncio imobiliza as sensações,
Congela-as por minutos, segundos...
A saudade é tão fria que permanece passado,
Fixa, num só momento verde-castanho,
Corpo e alma inertes!
No farol, emparelham-se olhares que rapidamente se trocam,
Sorrisos cúmplices das cores, dos cheiros
Dos sons
Da buzina de um carro,
Do que é visto, ouvido e cheirado.
Tudo fragmentado, decomposto e imperceptível.
Não há lamentos nem tampouco grandes gargalhadas.
Restam saudade e silêncio:
Uma, fria e verde, de tão apertada;
Outro, estático e castanho, de tão desejável.
Só se quer agora o silêncio castanho de tudo!
Naqueles poucos momentos,
Quase minutos, quase segundos
Que seus enormes olhos verdes
Puxados
Encontravam-se com os meus,
Estranhos e castanhos olhos,
Sentia-me atraída a eles e por eles
Olhos e mãos, pernas e corpo.
Naqueles poucos minutos, quase segundos,
Hoje, raríssimas lembranças,
Reminiscências, longe, muito longe...
Sinto-me estranha do que possa ter sentido;
Quase esqueço.
Penso, aperto os olhos,
Até que cheguem perto de ficarem verdes.
Mas o pensamento é distante e estranho,
E o tempo vivido é tão saudade somente
Que o silêncio imobiliza as sensações,
Congela-as por minutos, segundos...
A saudade é tão fria que permanece passado,
Fixa, num só momento verde-castanho,
Corpo e alma inertes!
No farol, emparelham-se olhares que rapidamente se trocam,
Sorrisos cúmplices das cores, dos cheiros
Dos sons
Da buzina de um carro,
Do que é visto, ouvido e cheirado.
Tudo fragmentado, decomposto e imperceptível.
Não há lamentos nem tampouco grandes gargalhadas.
Restam saudade e silêncio:
Uma, fria e verde, de tão apertada;
Outro, estático e castanho, de tão desejável.
Só se quer agora o silêncio castanho de tudo!
Assinar:
Postagens (Atom)