A Mesa - Branquinha – Regina Célia
(uma visão dos que compartilharam)
Cada casa é um mundo. A minha, a do meu berço, um mundo diferente, com hábitos diferentes, comidas diferentes, cheiros diferentes, vindos de muito longe. Um mundo à parte dentro do universo.
Comecei a conhecer o seu mundo em torno dela. Pela primeira vez que entrei na sua casa nova minha atenção se voltou de imediato à minha direita, meu olhar ali se fixou. Logo na entrada, a foto na parede, éramos nós, ainda e sempre. Dando boas vindas ao tempo que nos acompanha.
À esquerda, o espaço reconstituído. Ela, no centro. Tentativa de manter estático no tempo o espaço passado.
Olhei por alguns minutos, quieta, tentando entender o que vinha do meu coração. Lágrimas inevitáveis.
Entendi, então.
Ela não poderia estar em outro lugar senão na cozinha. Porque é nesse espaço que preparamos o alimento do corpo, e era naquele espaço - agora reconstituído - que começamos a criar e alimentar muito do que somos hoje.
Alta madrugada, foi em torno dela que a curiosidade mútua se revelou, entre uma bebida e outra, entre uma gargalhada e um choro incontido, entre um cigarro e um copo de leite. Sensibilidade à flor da pele, quente, adolescente, na superfície fria. No seu mármore, terreno fértil, muito dessa amizade tão cara, tão querida foi semeada.
No início eram tão poucas as experiências que trocávamos, porque tão pouca era a idade, que eram mesmo sonhos que nós delineávamos, com riqueza de detalhes. E ela tudo ouvia, em tudo nos apoiava, firme, e nos aguardava, ansiosa e generosa, a cada véspera de prova, a cada fim de festa, a cada confidência trocada.
As pessoas em torno dela me eram agradáveis, acolhedoras, como são até hoje. Recebiam-me com a familiaridade daqueles que já a frequentavam há muito tempo. Percebi, desde logo, e desde logo busquei compartilhar da acolhida em torno da mesa, com o mesmo afeto que recebia.
Mesa é lugar sagrado, dizia-se em minha casa. Não se canta nem se assovia. Mas é lá que se come e se compartilha o alimento, hora em que a família se aproxima, dando conta de como foi o dia e de como se pretende o dia de amanhã. Mas naquele seu mundo, a mesa branquinha tinha um outro significado, uma outra sina, além daquela que lhe era própria. Ao seu redor e sobre ela idéias e conjecturas fluíam. Iniciantes no ofício de pensar e questionar; era junto dela que exercitávamos nossas filosofias.
Então, como que por mágica, também ao redor dela, amigavelmente, sentavam-se poetas, escritores, músicos, filósofos e todos aqueles que nós, na nossa imaginação, quiséssemos convidar. Era muita gente, e ela suportava a todos, imóvel, ponto de referência. E a cada encontro o nosso sentir se acrescia de todas as idéias malucas, formuladas ao som dos nossos compositores e cantores preferidos. Penso até que ela se arrepiou várias vezes ao ouvir as nossas besteiras, intimidades, chegando a ruborizar seu mármore acinzentado. Mas nós não víamos isso, preocupadas que estávamos em nos tornar adultas. Muitos dias, muitas noites e madrugadas etílicas ela nos suportou.
Ao chegar na casa nova, ao perceber que a minha memória se enganchava no espaço onde ela ficava, voltaram juntos todos aqueles que a rodeavam. O pai, que ria da nossa ignorância e nos indicava o caminho dos livros, a mãe de delicadeza inesquecível, as irmãs, os irmãos, vestibular, a faculdade, as festas, o reveillon, o hino nacional, a conversa varando a madrugada, o violão, o piano, o noturno de Chopin, discos voadores, gatos falantes, os namorados, os beijos, o sexo, chá de cozinha, casamentos, filhos, crises, separações, brigas, reconciliações.
De certa forma eu também a adotei, ou fui adotada, não importa muito a ordem das coisas, porque não iria mesmo alterar o produto. O produto somos nós. Orbitamos, inconscientes, ao seu redor, até hoje.
Não escrevo como memorialista ou nostálgica. Falo do presente tão presente, junto da mesinha branca, que está dentro de nós. Persistimos no mesmo espaço, rodeando-nos, nos estranhando e nos reconhecendo. Pouco importa se a mesa está, importa sim que ela é, ainda e sempre.
Fissuras, rachaduras, arranhões, são inevitáveis, na mesa e nas nossas vidas. A pátina do tempo (desculpe o chavão!), as rugas que contam histórias, o descascado da tinta que só faz aparecer a estrutura, aquilo que é, que apóia, que segura, indiferente a cor.
Cada casa é um mundo à parte dentro do universo. A branquinha habita nosso mundo, nossa casa-amizade, transcende o espaço e a matéria. Ao escrever sobre ela, estou ao redor dela, olhando para você numa madrugada qualquer, dando risada e falando bobagem, bebendo uísque e fumando, entre choro e filosofias, entre poesia e prosa, falando da vida.....ela, testemunha de tudo isso, hoje, tem muita história para contar !
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Um comentário:
Mais uma homenagem ao coração que batia na casa de meus pais, circundando Branquinha. Coração de todos os que a circundavam.
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