sábado, 17 de outubro de 2009

Noturno a Chopin (ou Música em sonho)

- Ana Lúcia – 09


Onze da noite e resolvo dormir.
O sono não vem e os sonhos persistem.

Briguei com os sonhos e o sono brigou comigo.

De mal com o mundo.
De mal comigo.

Pelas tantas, cansaço de guerra,
o sono sente a chegada dos sonhos.

Psiu...
Silêncio!!!
Escuro.

Sonhei que era jovem e minha cara era a de hoje.
Sonhei que o piano que não toco tinha teclas duras.
Sem som.
Sem sonho.
Silêncio...

Tenho sono e sonho sonhar...

.........

As melodias das teclas trituram a cabeça, traem os dedos,
Não sabem sair.

As teclas, duras.
As pedras duram.
Minha cabeça é dura.
Eu duro.
O piano não toca;
os dedos são traídos.
Não toco.

Silêncio!
Psiu....

Teclas, pedras, cabeça branca e vazia,
Ferramentas inúteis!

Piano e dedos traiçoeiros...


As teclas brancas e pretas, cheias de notas que os dedos não tocam;
piano que meus dedos não tocam.
Piano silêncio
Som sem sair.

Inútil tentar tocar as teclas que não tecem o sonho da música.
Inútil tentar dormir e sonhar.

Dedos de pedra e melodias insonoras.
Hora de sono sem som e sem sonho.

Insônias...
Silêncio obscuro.


De repente, o violão.

Desconhecido, cisma e surge no meu sonho
sem convite, sem orquestra.
As cordas fluem, vibram,
Insensatamente...

O violão sonoro do sonho,
Berimbau e aplausos.

Eu já não sou eu.
Sou a cara de outro.
Os cabelos, sombras de sons.

Surgem acordes, som e sonho.

“De ça de là,
Les sanglots longs des violons de l’automne
Blessent mon coeur d’une longueur monotonne...”

De um piano vieram outros
e mais outros pianos
e mais outros teclados.

Vieram acordes que os dedos não sabem tocar,
Dedilhados sós,
não soam.

Tons sem sons,
Tons petrificados.

No sono, do sonho de ser som
surgem somente vibratos,
vibrações, violões.

Até o despertar da sensação sublime do sono descansado.

Sonho noturno.
Chopin.

Despertai!
Despertei:

O violão velou a vã querença de ser artista.

2 comentários:

Unknown disse...

Ana

É o seu sonho, tocando Berimbau, do Baden...! Noturno de Chopin ! Faz parte da minha (nossa)trilha sonora e qualquer dia tomo coragem e volto a toca-lo. Toque, invente, brinque,crie, sonhe, tudo que vc tiver vontade. Depois, traduza em letras, palavras, ritmo.... Triste ou alegre, essa é sua (a nossa)arte.Adorei...

Ana Lúcia Carvalho disse...

Só quem me conhece sabe de meus sonhos insistentes e intermitentes.. Muitas teclas de pianos muitos, sem sons...Engraçado e aflitivo!