domingo, 13 de junho de 2010

ABSTINÊNCIA GLOBAL (OU QUE FALTA FAZ UM CIGARRO OU QUE MEDO DÁ UMA CHUVINHA)

Saio de casa correndo, antes que o temporal me pegue.
Rápido: botão do elevador, chegar ao térreo, ultrapassar os dois portões automáticos. Barreiras e mais barreiras.

Fui.

Atravesso a rua, passo acelerado, de tênis, chego na outra calçada.
Mais um quarteirão e a angústia das nuvens pairava sobre minha cabeça.

Chove ou não chove?

Fui.

Do outro lado, desvio-me de um bêbado que esticava a mão, pedindo uma moeda.
Todo dia a mesma coisa.

Mas o temporal vem vindo

Não, não dou nada ao bêbado, sem-teto. O dinheiro era suficiente só para o meu vício.

Na banca da esquina peço: um maço de Free, por favor.

- Sinto, não entregaram.

Fico sem saber o que fazer, as nuvens acima da cabeça, tempestade em vista e eu, de tênis.

O bêbado em frente de casa.
Tenho de voltar. Quero fumar.

Arrisco.

A padaria do quarteirão seguinte.

Vou mais depressa do que antes. Alguém na frente do caixa pagando o pãozinho. OK, pagou. Passou. E aí, amigo, tem Free?.

- Sinto, não entregaram cigarro hoje.

Desespero total.

Estou a dois quarteirões de casa e só Deus e os meteorologistas poderiam saber a quantas tempestades de minha cabeça.

E se chover, vai ser pior. Molhado e sem cigarro.

Fui!

O camelô da outra esquina que vendia os importados fajutos poderia ter cigarros.

- Sinto, Free não tem.

OK, falo desesperado, qualquer um.

- Só os sem filtro!

Pensei: é demais.

Deixei pra hoje, andei mais de dois quarteirões, a chuva, temporal continua sobre minha cabeça e ainda tenho de comprar cigarro fajuto. Antigo. Sem filtro.

Volto à padaria, outra marca:

- Não, sinto, só sem filtro.

Cilada, outra vez. Porcaria de campanha antifumo. Mas e a chuva? Temporal.

Raios!!!!! Lá longe, quase perto se anunciam.

Bem, tenho de correr, tênis molhados.

A um quarteirão de casa. Na banca, onde costumo ir, compro jornal...nada de cigarros. Padaria, só pães e alguns frios.

Já sinto o vento do temporal. Que saudade do meu sofá quentinho.

Do lado de casa: o bêbado, molhado com os primeiros pingos:

- Um dinheirinho...

-Tudo bem. Vc Tem cigarro?

- Serve Free? Só que é com filtro.
- Feito. Passa.

Dou R$ 20 reais. Ele me dá um maço amassado com 5 cigarros e vai feliz à padaria tomar sua pinga.

Voltamos felizes: eu fumo e ele continua bêbado.

Mera atualização em Santo Antonio

Faz tempo que não atualizo meu blog. Sou meio crua nisto e nem tenho certeza de que sirva como espaço para se manifestar, seja lá sob qual forma. Bem, de qualquer forma, vou persistir, nem que minha persistência se restrinja a um mundo bem pequeno de pessoas bem queridas. Se aumentar, fico feliz.

Atualizando a pedidos!

Histeria Muda
(Ana Lúcia 26.02.2010)




Grande orelha surda,
Nada vê, nada sente, nem toca.
Barulhos de vozes.
Música alucinante.
Barulho que nem se quer perceber.
Garganta afundada n’areia.

Surdo e mudo
O mundo gira, gira e alguém fica.

Sufoco do pescoço
Nada engole ou digere.

Vozes mudas,
Sons agonizantes.
Ninguém dá atenção à angústia.

Pó grudado na traquéia
Sufoco imundo
Pó no mundo que gira e alguém foca.

Foto publicada na piscina da vida.
Nada de fundo, sem flash.
Nada!
Imagem cega,
Contraste atenuado.

Em nado a imagem é lamúria.
Prostração nua e imóvel
Num mundo foda.
Corpo inerte,
Orelha surda,
Olho cego,
Muda a voz.
Nus os braços da camiseta regata.