terça-feira, 23 de agosto de 2011

Ida e vindas

Me nasceram e bendisseram.

Das madrugadas

Ida esperança acordada

volta

amados

esperados

vou

nem que não queira.

Deus.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"Lágrimas em corpos" e "Pena" - 2 poesias

Lágrima em corpos
Ana Lucia (2010)


Há vezes em que o soluço soa só.
Noutras vem acompanhado de gotas,
De colírio, de consolo.

Lágrimas inexplicáveis.

Por ora as palavras são vozes ríspidas;
Ofensas a quem pretende não as merecer,
Raiva e amor,
Consolo em colo sem mérito.

No canto solo de lírios,
Lágrimas sós,
Abandonadas e brancas.

Mortas e nuas.
Ninguém as olha.

Assustados, sentem-nas
E continuam a chorar em pé.
Todos nus.
Almas brancas, líricas, tristes.
Só lágrimas.


Pena (Ana Lúcia - 2010)

Pena escrita,
pena de desenho claro,
poema atrelado;
Sofrido desenho à pena,
palavra: tinta a formatar.

Sentimento.
Ligações.

Poema percebido e arquitetado pela estranheza do verbo.
Poema desenhado,
tingido lá longe onde nada se vê;
lá longe, perto de tintas, formas e palavras.

Perto de nada.

Elos.

Pena de quem não vê montanhas,
Pena de quem não desenha o poema,
Pena de quem não arquiteta.
Pena do poema que não tem pena nem poema,
nem pena,
nem poema.
Nem pó.

Poema claro.
Arquiteto aqui perto do verbo,
forma e sentimento,
Verbo
Elo
Desenho
Cor
Traço
Limpo
Pena.

Bico de pena
Montanha clara,
Horizonte:
Poema!

O bilhete - março/2011

“Têm coisas que não se escondem, embora se percebam. Coisas entre o céu e a terra que vão comer olhos, cabeça, pênis, intestinos, peitos, ovários e útero.
Coisas de iniciados, que rezam demais e não pecam. Nunca pecam.”

Zé Augusto se apaixonou de cara por uma morena bonitinha, olhos puxados e que, a seu ver, era melhor do que as outras moças do quarteirão onde morava. De fato, não tinha nada de excepcional mas só porque não gostava de fazer chapinha nos cabelos e de não se vestir como se fosse embalagem de café a vácuo já merecia todo seu apreço.
Explicando, se é que a tanto mereça, nunca a tinha visto com vestido agarrado, daqueles que dão a impressão de que se agulha bem fininha encostasse no tecido grudado ao corpo, a carne se explodiria .
Zé vasculhou muito e soube que a moça frequentava igreja e se chamava Quitéria.
Morava com uma tia e trabalhava o dia todo, até 7 da noite, em bairro mais elegante. Como ele, tomava duas conduções, ao menos quando não chovia muito.
Também como ele, ia à Igreja.
Sempre que dava, Zé se encostava no muro da esquina da rua onde ela morava. Espiava o tempo de ela ir embora.
Isso tudo durou dias, meses ou um ano.
Durante o tempo em que Zé cursava o técnico de eletricidade à noite, sua volta pra casa era ilustrada por Quitéria. Lá pelas 10, 11 horas depois das aulas.
Num dia, cheio de coragem e nada de chuva, aproximou-se dela. Foi o instante de haver um choque térmico, descarga elétrica e de se entenderem. Átimo de segundo, transformado em carinho, desejo, vontade de casamento mesmo. Corriam por for fora dos adeptos à solidão num mundo correto politicamente.
E foi assim que, conversa de cá e de lá, mãos por aqui e dalí, principalmente aos domingos depois da missa combinada na mesma Igreja, sob a Bíblia, com direito a padrinhos e bênçãos paternas e fraternas de ambos os lados, casaram-se.
Zé era meio sem jeito nos toques, embora Quitéria procurasse mostrar o caminho das pedras. De qualquer modo, seguiam na vidinha de estudar e ganhar dinheiro, planejando filhos, casa própria, coisa e tal. Planos mais dele que dela.
Nesse ritmo, Quitéria engravidou, teve o filho e, porque amamentar é sagrado, parou de trabalhar e dedicou-se a criar o filho.
Moraram numa casa de cômodo, alugada e limpinha. Tinham a TV e, nos programas à tarde, Quitéria, filho no peito, se instruía à beça sobre a importância do leite materno.
Como nas novelas, passados os dias, a criança cheia de fome negou o peito de Quitéria. Enquanto isso, Zé culpou-se pela falta de dinheiro, pela falta de leite e de educação. Sentiu o peso da responsabilidade de ser um “pai de família” e entendeu...
Quitéria, desempregada desde que sacrificou a vida para se casar, ter filho, amamentar e que, nua da máxima função feminina, sentia-se largada pelo filho que dela não sugava mais nada. Olhava-se no único espelho em casa e só enxergava os peitos flácidos há tempo intocados. Murchos mesmo.
Pensou em achar emprego, deixar a criança com a tia. Só que o mercado estava difícil, a tia envelhecida.
Quitéria pensava e se acovardava. Sentia medo e lhe faltavam toques.
Zé Augusto, de seu lado, marido convicto das responsabilidades masculinas, consentiu que sua mulher ficasse em casa, cuidando da prole, por enquanto pequena, mínima, enquanto arrumasse um emprego no horário da meia-noite até as 6 da manhã.
Deus ajuda a quem trabalha!
Afinal, a formação de eletrotécnico que tinha conseguido na juventude remota rendia pouco mesmo e, por conta da insistência de um amigo muito íntimo, padrinho do filho, aceitou ser vigia noturno de uma empresa não longe de casa.
“Basta um cursinho de 6 meses”, dizia o compadre, para se formar e exercer as funções.
Assim fez e assim passou o tempo entre ele e Quitéria.
Seis meses de vigia noturno era menos do que duraram os flertes próximo ao muro da esquina.
Nas horas vagas que Zé conseguia, corria pra igreja, rezava o pouco que Deus permitia agradecer a sua sorte. Depois, em casa, ele e Quitéria se tocavam rapidamente, pra não perder o hábito.
Nos seus dias folgados, filho mais ou menos crescido, entre um ou outro toque conjugal, Quitéria percebia que ser mulher até que era bom.
E assim foi.
Zé e Quitéria iam levando a vida com sentimentos e noites desencontradas por conta do trabalho dele e de Júnior, que chorava madrugadas, dias, noites.
Não veio mais filho. Quitéria passou a deixar Junior na creche, arranjou trabalho de meio período, como deveria acontecer.
Um dia, marmita após marmita, vez ou outra preparada por sua mãe, forte incentivadora do esforço do filho querido - Quitéria mal tinha tempo de refogar a mistura por conta de trabalho com Junior - , Zé sentiu um mal estar, corpo mole e pele quente. Nunca tinha faltado a seu posto de vigia noturno e, sem saída, encheu-se de coragem, pediu ao patrão se podia ir embora. Uma única vezinha de nada!
Zé Augusto, convicto responsável. O chefe , como qualquer patrão, não queria ser alvo de acusação trabalhista, menos ainda deixar uma propriedade ao Deus dará. Daí, tratou de arrumar um substituto pro eterno vigia noturno.
Agradecido, Zé catou sua marmita intacta, pegou a condução de volta à casa, ansioso por uma aspirina e cama. Chegou às 10 da noite, bem antes do habitual, entrou pela porta dos fundos e, na geladeira, como sempre acontecia às quartas-feiras, leu o bilhete:
“Amor, fui à feira. Volto logo. Beijo, te amo”.

Servidão

Ana Lúcia (29.05.2011)

Nomes, sobrenomes
discutidos e mal paridos
das festas íntimas
das colocações simples
nada significam
ao léu, ao nada
da vida que se deu
risada.
Desprezo desencarnado
brigadeiros ingeridos nas vestes
do que não se admira
do que se pretende inexistir sempre
apesar da constante busca
dos elos
das sementes
da força vinda de tudo
parida para a festa
dos doces carregados
em bagagens da vida eterna.
Amém!