CRAQUELÊ
-Alô! Quem é????
- Sou eu...
-A essa hora... Quem é?
- Eu. Não reconhece mais a minha
voz?
- Acabei de acordar... Tô sonada ...
quem ?
-Eu, Augusto.
-Não acredito... A essa hora? Me
acordando? Não basta não me deixar dormir a vida toda?
- Não sabia o que fazer a não ser te
ligar...não se preocupe, o prejuízo você põe na minha conta....
_Ligar pra que? Pra me acordar, pra
não me deixar dormir nunca mais? Não dava pra me encher o saco mais tarde?
- Desculpe... Não sabia o que
fazer...
- VOCÊ??? Sem saber o que fazer???
Tão seguro! O que você quer? Roubar o que restou de minha alma? Incomodar mais
ainda o que sinto de mim mesma?
-Não, nada disso, só queria...
-Sei bem, só queria me acordar pra
lembrar que nem ao menos posso dormir em paz!
- Nada disso...
- O caralho! Você quer continuar
aquela conversa babaca de ontem, pra acabar ainda mais com o pouco que eu sinto
de mim?...
- Nada disso... Eu queria...
- Você só fala isso? Sempre eu
queria, eu ia, eu sonhava... Dá pra falar em algum tempo perfeito e acabado,
planejado, no mínimo? Sem ironias ?
...Ok, você venceu... Não percebe que
nem saí da cama, nem sei se estou acordada mesmo?
Mas já que ligou, quer saber, cara,
você não passa de um sádico, destruidor de imagens... Aposto que nem se lembra
do que fez ontem, antes de me deixar aqui, sozinha, depois de vinte e porradas
de anos, nesta cama enorme... E agora me acorda com a porra desta campainha estridente que você mesmo fez
questão de gravar nesta porra de telefone... Você não passa de um chato!
.....
- Desculpe, tô meio que dormindo...
Mas você não tem semancol.
-Olha, acho que a gente pode
conversar, não foi nada do que você está pensando..
- Eu não tô pensando nada. Aliás,
nessa hora da quase madrugada, depois de ontem... Nem penso... No meu devaneio
(sim meu grande devaneio, só pode ser isto), você foi bem claro quando disse
que já passei dos 50, que minha barriga só chegava perto do tanque e nada tinha
a ver com “tanquinho”. Você deixou bem claro que meu caso era de “Extreme
Makeover” . Aquele programa americano que reforma mulheres infelizes... Lembra
disso?
-Bem...
- Lembra sim. Quando disse que meus peitos não passavam de
peitos e que “seios” você tocou há vinte e sei lá quantos anos , quando me
conheceu e eu era virgem? E quer saber –
você adora saber -, agora que já me acordou pra encher o saco, vai ouvir mesmo.
Você me avacalhou. Não considerou os porras de anos que dei sentimental,
literal e sexualmente pra você. Fora os filhos que também dei a você, a mim, às
famílias, sua e nossa. À sociedade. Às muitas horas de mamadas, de madrugada ou
não... Cocôs em fraldas, choros, dores de barriga... Suquinhos, papinhas que
você fingia fazer nas temporadas em casa de amigos... Um porre! Um porre tudo.
Os amigos, os falsos suquinhos e papinhas.E os porres de cerveja, emendados com
os próximos choros, fraldas, etc, etc... Uma porra só!
_ OK, sei dis...
- Então, se sabe, agora vai
decorar. D E C O R A R!!! Entendeu bem? DECORAR!!! Entendeu bem mesmo???
Decorar pro resto da vida, nem que seja pra outra mulher menos idiota que eu!
Escute bem: já acordei muito, mas muito mesmo, de madrugada, pra tirar meus
peitos e agraciar pessoinhas com o leite que Deus me deu. Sim, morra de inveja.
Deus, sabe-se lá por qual motivo bíblico, deu a mim o grandessíssimo privilégio
de engravidar, parir e amamentar. Entendeu bem? Tá ouvindo ou já se acovardou?
Foi a mim, mulher, que couberam esses privilégios. Tá ouvindo? Foi a mim que
sobraram os peitos – isso mesmo, peitos e não “seios” – cheios de antes e
caídos de hoje. Simplesmente porque Deus quis a mim como mulher e não a você.
Tá ouvindo bem?
- Calma, tô aqui ainda e só liguei
para...
-Nem quero saber. Cedo demais pra
ouvir e tarde demais pra entender tudo o que você tem a dizer, depois de ontem,
depois de tantos anos. Mais de vinte, muito mais anos de trepadas, partos e
mamadas. Todos os leites são meus e por isso meus peitos estão caídos, como
você insinuou e até pretendeu achar que eu precisava de uma plástica que você
poderia pagar com o meu – meu, entendeu bem? - dinheiro, em prestações que,
sabe-se como e, se desse, você me ajudaria a quitar... Irônico, não??? Você
nunca, nunca quitou nada nesses anos todos. Você passou a vida devendo. Você
não se enxerga! E por falar nisso, cadê o espelho que você quebrou ontem? Vamos
diga? Agora é sua vez? Cadê o raio do espelho? Catou os cacos?
-Olha, eu nem...
-Olha??? Aonde? Você acabou com o
espelho! Vou me olhar onde? Vou me olhar no espelho quebrado por você, só
porque você resolveu tomar coragem
depois de tomar um porre, claro, e me dizer aquelas coisas que, nunca, ninguém
me disse?... Cara, entenda que todos os dias, mas todos os dias mesmo, com
exceção daqueles em que dei de mamar ou dos que estava de ressaca, depois das
festas idiotas às quais eu ia acompanhando você – afinal, você precisava
mostrar que tinha a seu lado uma mulher bonitinha, jovenzinha, que sabia se vestir razoavelmente bem,
conversar sobre qualquer assunto, conhecia política, música e, principalmente,
falava mais de uma língua – enfim, todos os dias você monopolizava aquele espelho.
Você brilhava no seu sistema solar em frente àquele espelho de um jeito tão,
tão, tão... sei lá como, que nada mais, se refletia no espelho. Só você. Aliás,
só o sol, porque você nem se enxergava. Era impossível alguém se ver naquele
espelho. Excesso de luz! Eu, a lua, nua e crua!
-Calma, eu nem falei nada...ain...
-...ainda, você quer dizer. Nem
precisa. Tudo que restou aqui foi sua imagem espalhada por toda a casa. Uma luz
doída. Nem o espelho ficou porque você fez questão de quebrá-lo em muitos
pedacinhos. Sim, pedacinhos. Bem pequenininhos, pra que se eu me olhasse, visse
apenas minúsculas Betes. Minielisabetes. Betinhas. Bestinhas, como você sempre
quis. Meia lua, arrasada, com ressaca eterna, sem capacidade de acordar e se
ver inteira. Pronto. Falei. Aos cacos, mas falei. Agora, fale você. O que você
quer a esta hora da manhã?
- OK. Se acalmou?
- hummmmm...
-Então, tem certeza?
- hummmmm... Fale logo, tô com
sono...
- Liguei só pra dizer que contratei
o Joca pra trocar o espelho que quebrei. Quero sair sem dever nada! Avise à
Joana que ele deve ir lá pelas 11 horas. Se cuide, tá?
Toc. Telefone no gancho.
E eu, no gancho também. TPM,
menopausa, peito caído, barriga no tanque. 50 anos.
Foi essa a big comemoração que
recebi. Mas o porre... bem, esse foi ele
quem tomou.
Tentei voltar a meu querido e amado
sono.
Sonhei que morava numa casa cheia de
grama verde ao redor, o mar em frente e, entre o mar e a grama verde, a areia
branquinha. Tudo interligado naturalmente.
A casa do sonho era também branca,
delineada em azul nos seus acabamentos. Branca e azul. Colonial. Casa, grama,
palmeiras, areia e mar. Nesta ordem.
Eu estava na rede, me balançando,
pra lá, pra cá. Um homem lindo, olhos verdes, cabelos pretos, lisos e soltos
(floft, floft), chegava bem perto de mim e ia me beijar quando...
A porra do telefone tocou.
Trrrim, trrrim... alto e estridente.
Saco.
Depois de forçadamente acordada e
tendo de encarar minha ressaca moral, caí em mim. Não , caí de mim
mesma e fui me olhar no espelho. Nem queria me olhar . Ia só escovar os dentes,
como todas as trocentas manhãs depois dos meus 21 anos. Desta vez, esbofeteada
pelo tilintar irritante do telefone, sabia que não iria encontrar o espelho
que, infelizmente, me encarava há mais ou menos 20 anos. Claro, o espelho não
era o mesmo de anos atrás. Nem eu mesma era a mulher que nele tentava se olhar
há anos.
A briga tinha sido mesmo muito,
muito feia, apesar das taças de pro-
secco que bebemos.
Grandes intenções e muitas
esperanças. No fundo, nem eu, nem ele queríamos beber nada, comemorar nada,
relembrar nada, beijar ninguém. Mas...o álcool. Este velho aliado e inimigo
conhecido.
In vino
veritas.
Ninguém resiste ao vinho e ao
espelho. A lua tenta se refletir, lá de cima, em qualquer espelho d’água! Lua
de qualquer tamanho.
Ninguém, a não ser os homens. Seres
especialíssimos, centradíssimos, corretíssimos. Todos os íssimos.
Principalmente quando querem acabar com a imagem lunar da mulher. Mais ainda
quando essa mulher é aquela que representa seu espelho, sua verdade. Aquela
que, depois dos tempos de beijos, reflete sua vida, carregada de fraquezas,
fortalezas, vitórias e derrotas.
Bem, de frente, o espelho do
banheiro estava quebrado em muitos pedaços. Não pude me olhar naquela manhã
cinzenta.
E se tentasse, iria me enxergar
estrábica, como se fosse muitas Betinhas, muitas bestinhas. Idiotinha mesmo. “Ei,
coisinha aí...vem cá!” A chatinha, a “coisinha”. “Oi, coisinha! Olha, aquela ”coisinha” chegou. Como é mesmo o nome dela? É Coisinha,
né?”
Por que razão resolvi achar que algo
poderia ser restaurado entre mim e Augusto? Por que comprei as garrafas de
champanhe e prosecco? E os aperitivos
que ele trouxe?
Por que fiz tudo isso se já
pressentia que nada serviria para trazer de volta todos aqueles anos vividos?
Por que ele veio cheio de aperitivos
e preliminares?
Qual lugar comum me fez achar
que iríamos nos encarar, um ao outro,
sem que nossas imagens estivessem invertidas? Qual de nós acreditou na imagem
refletida?
O que foi servido primeiro: as
pequenas doses de indiferença diária dos últimos anos como preliminares ou o prosseco esculhambado da noite passada?
Qual espelho, espelho meu, exclusiva
e unicamente meu deu a mim a grande pretensão de achar que não tinha mais vinte
anos, que nunca tinha amamentado, nunca tinha dado a luz a pessoinhas e delas
nunca tinha trocado fraldas?
Qual espelho já me tinha refletido
aos cacos, sem ter sido quebrado? Quem me inverteu a imagem no antigo espelho?
Qual espelho me mostrava como lua-metade?
Tinham-me acordado.
Augusto me tinha acordado para falar
nada. Absolutamente nada que fizesse sentido ou que se fizesse sentir. Seu
problema nem era consertar o espelho e sim substituir o que tinha quebrado.
Não estava errado. De nada me adiantava remendar os pedacinhos do espelho
antigo. Nem a ele adiantava remendar. Para Augusto o espelho era craquelê e se eu não gostasse, melhor
mesmo era trocar aquele por outro.
Os caquinhos do espelho eram, para Augusto,
composição artística.
Craquelê.
Os pedaços a que venerável Augusto
me reduziu nunca mais poderiam ser recompostos.
Sobrevivi em caquinhos!
Para mim, eu não era arte. Era
apenas quebra-cabeça difícil de encaixar, resolvido pela paciência da idade que
nem eu e nem Augusto tínhamos mais. Nem paciência, nem idade de paciência.
Nada de reverências a nenhum Augusto.
As idades do homem e da mulher são muito
diferentes! Somos distintos em nossas relevâncias.
Por exemplo, eu não ligaria para Augusto,
acordando-o cedo, depois de uma noite de champanhes e proseccos, pra falar merda. Me incomoda muito esta mania que ele
tem de se achar solene e moço. Augusto pensa que continua juvenil.
Continua juvenil? Jovem? Ridículo?
Solenemente idiota, isso sim.
Que direito tem ele de me dizer que
eu nem precisaria escolher este ou aquele vestido, esta ou aquela camiseta,
calça jeans, baby-doll, se no estado físico em que me encontro nada me serviria
mesmo? Segundo ele, claro!
-
Tanto faz. Nessa altura da vida, você tem mais é que ficar vestida com roupas à
vontade.
Augusto, do alto de sua majestade, me
disse isso várias vezes, mas eu poderia ter dito o mesmo a ele. Várias vezes.
Não disse. Nem quando estava de
salto alto.
Delicadezas...
Digamos, cá entre nós, que “à
vontade” quer dizer moletom, certo?
Foi assim que recebi a “ofensa”, antes da briga.
E é assim que quero que ele entenda: todos nós vestimos “roupas à vontade,
depois de certa idade”!
No mais, poderiam ter sido risos...
Muitos risos.
Não foi.
Foi briga e foi feia. Foi briga de alguns-quase-todos
anos jogados nas caras de um e de outro.
Triste, muito triste mesmo.
Taça voou. Outra taça voou de volta.
Prosecco se esparramou em mim e nele,
encharcando os todos, muitos anos de convivência. Alguns anos de amor, outros
de carinho. Os finais, de raiva. Todos encharcados de prosecco.
Pensando bem, houve um brinde à
altura dos anos convividos.
Por isso, eu mesma, Bete, Betinha, Coisinha,
atirei com toda a força de minha alma a taça que segurava na mão e, má
pontaria, quebrei o espelho atrás de Augusto. Naquela altura, se me lembro bem,
estávamos no banheiro. Sim, quase certeza de que era o espelho do banheiro. O
espelho mais íntimo, que compartilhara um bocado de anos entre nós.
Augusto e eu.
Disse que fui eu quem atirou a taça?
Disse mas não tenho certeza do fato.
No meu coração, Augusto já havia
atirado várias taças, uma por dia, e quebrado o espelho.
Caco por caco.
Acho que, em seu íntimo, Augusto
sabe que foi ele quem quebrou o espelho depois de cada uma das taças
arremessadas, cheias de pequenas maldades destruidoras da imagem que eu tinha
de mim mesma.
Ele, Augusto, soberbo, inteiro. Taça
intacta.
Por isso me ligou cedinho. Apenas
pra avisar que mandaria trocar o espelho. Nem pensou em consertar.
Pretensioso.
Este é Augusto... Taça de nada.
Vazia e inquebrável.
O espelho sem reflexo.
Eu, Bete, tentaria consertar, mas
não me deixaram...
Nem me lembro se atirei aquela taça
contra o espelho. Nem sei se bebi aquele prosecco
no banheiro, antes de ir para o quarto.
Quando ele, o telefone,
irritantemente, tocou, só me quis dizer que haveria uma troca de espelhos. Tal
qual troca de fraldas de madrugada, em socorro ao choro infantil.
Meras trocas: fraldas, espelhos,
pessoas. Meras trocas.
No mais, eu que invertesse os
sentimentos e imagens. Que invertesse a vida que eu mesma fiz e jorrasse tantos
proseccos quantos necessários para
comemorar cacos de espelhos.
Taças podem ficar inteiras. Espelhos
se quebram.
O problema é meu!
O azar é de quem não enxerga.
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