Num dia paulista e cinzento (Ana
Lúcia), como hoje, 21 de julho de 2013
Porque há sempre pai que desenha navios. Porque ninguém tem privilégios.
“E, a meu ver, algo confessado a alguém por
confiança, se espalhado, é mentira, já que
deslealdade solta ao mundo é equivalente à mentira!
Se
for muito segredo, segredo bem grande, daquele que venha a magoar você mesmo, então
guarde. Se for segredo que dê a você mais confiança como gente e que não
prejudique ninguém, pense muito bem se deve passá-lo.
E,
se for segredo que nasce de muito prazer, jamais confesse.
Sinta
eternamente o seu prazer exclusivo.” (AL)
Sentada na murada do porto, lá no canal de Santos, a Menina olhava para
seus próprios pezinhos que balançavam. As sandálias tinham ficado largadas,
encostadas no muro. Vez ou outra, levantava os olhos e meia cabeça. Espiava um
navio que viesse atracar naquele cais. Pouquíssimas ondas. A cor do mar não era
compatível com as descrições dos poetas que lia, nem das estórias que ouvia.
Nada de cristalino nem verde esmeralda. O mar ali era denso e verde escuro,
muito escuro. Quase petróleo.
Ela ficava naquele movimento de balançar pernas, pezinhos e olhar o mar.
Não tinha muito vai e vem de ondas. A menos que algum navio bem grande chegasse.
O que ia e vinha eram os olhos da Menina.
Mas os cheiros...
Os cheiros eram maresia misturada com óleo. As brumas podiam anunciar
chuva ou mormaço. Ela não entendia muito bem se naquele certo dia iria chover,
se o horizonte reto de tudo significaria sol... Ela simplesmente não entendia.
Balançava as perninhas e às vezes lançava um subolhar verde, lá para o
horizonte reto.
E assim iam pezinhos e perninhas
pra lá, prá cá.
As sandálias devidamente guardadas atrás dos muros do cais. Os olhos enxergavam
um horizonte fixo, abaixo das águas que se escoravam na murada. Viam o que
conseguiam ver. As pontas dos dedinhos das mãos formavam uma cabaninha em
ângulo sobre os olhos que, bem apertados, buscavam perceber o tal lugar de
sonhos, cheio de minaretes. Lanças apontadas para o céu que lhe
traziam homens e mulheres carregados de curiosidades e choros.
Era sempre assim, até que chegava o Gigante, sentava-se a seu lado,
dava-lhe as mãos, balançava as pernas fortes junto com as suas perninhas,
olhava abaixo e muito além daquela água quase parada na murada. Colocava os
olhos castanhos esverdeados no horizonte fixo e explicava tudo o que a menina
não entendia.
Lua
Crescente, conquistas, batalhas, novas terras,
tecidos coloridos, odaliscas, ouro...
Enfim, tudo que seria incompreensível e que começava: “Lá na minha terra...”
A menina se estendia no muro e confortavelmente deitava sua cabecinha no
colo do Gigante. Já não precisava ver. Bastava-lhe ouvir.
E o Gigante falava de navios, marinheiros, tombadilhos e escotilhas.
Descrevia tudo, com muitos detalhes, de modo que de repente o mar entrava em movimento. Grandes
navios se aproximavam, enquanto as ondas pareciam espumar e exalar cheiros.
Vinham as histórias de Atlântico distante. Atlântico que beirava e se
misturava no Mediterrâneo. Pedrinhas na areia, sol forte e algo que à Menina
pareciam casinhas muito brancas, pregadas nas rochas de países que a ela não
passavam de estórias ou desenhos em livros com ilustrações fabulosas.
Como o mar, as estórias do Gigante passavam a fazer parte de sua
história. Nem ela, Menina, sabia. História guardada na sua alma afetiva, segredos do
coração que ela não ousava revelar a qualquer um......
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Quase oito da noite, depois de um dia pesado no escritório, Marta largou
a bolsa na poltrona da sala, assim que entrou em casa. Cansada , muito
cansada. Fora o estresse de costume, o trânsito e a chuva que não tinha parado
o dia todo, a semana toda. Semana cinzenta da hora de acordar até a hora de
dormir. Dois contratos desfeitos, um a confirmar. Contas pagas, outras
penduradas. Clientes insistindo em resultados. Outros
desistindo de negócios. Dinheiro saindo, pouco dinheiro entrando. O vai e vem
da vida e pouca compensação.
Marta queria paz. “Voltar ao útero materno”, pensou.
Largou os sapatos no corredor a caminho do quarto e seguiu direto ao
banheiro:
“Uma
deliciosa banheira, cheia de água morna, sais de algas, velas aromáticas.
Preciso de força.”
Preparado o banho, sem roupa, balançou as mãos na água. Teste de
temperatura.
“Boa”, sentiu.
Sentou-se na parte reta da banheira, colocou devagar os pés na água e
balançou as pernas. Fechou os olhos e se lembrou do mar da infância.
Calmamente, foi entrando no banho, o aroma das algas subindo. Ao fundo, o
som de um blues, separado para essas
ocasiões de relaxamento.
Já dentro da banheira, ajeitou o pescoço na almofada encravada no
mármore, desenhada em formato de concha, exclusivamente para que ela se
encaixasse nos seus banhos e ouvisse seus sonhos.
Assim deitada, olhos fechados, embalada por cheiros e som, entrou naquele
estado alfa. Estado de prazer.
Sentiu o Gigante de sempre, mãos fortes agarradas às dela.
Tudo em volta fluía, ia e vinha com muitos sons, visões e cheiros. Sempre
e sempre. Marta voltava a ser a Menina, muito menina de olhos verdes, o pai de
olhos verde-castanhos, a mãe de olhos escuros. Todos olhando o mar
verde-escuro.
Sentia-se feliz, mergulhada nos sonhos de aromas e sensações.
Seu segredo onírico e inviolável. Sua fortaleza.
O Gigante sentou-se então à beira-mar, aquietou-se por um segundo, beijou
a testa de Marta menina, deu um sorriso entre carinhoso e irônico e começou a
contar estórias, muitas estórias.
- Certa vez - começou - um navio do lugar das comidas diferentes surgiu
no alto mar, e trouxe marinheiros e odaliscas vestidas com tecidos finos e
coloridos. Eles vinham dançando, alegres. Era um navio que chegava lá
da minha terra, você sabe... todos aventureiros que disparavam para os lugares onde
acreditavam podia haver coisas melhores pra acontecer. Foi assim comigo, já falei. Ainda sinto
saudade do mar da minha terra. Mas, olhe, aprenda a perceber pela cor do mar se
a maré vai subir ou descer, se o tempo vai ser de sol ou de chuva. Preste
sempre atenção na cor de tudo e de todos. As pessoas são mares e têm suas
marés. Conhecendo suas cores e tons, fica mais fácil se prevenir. Isso, chegue
mais perto de mim. Vou mostrar como se pegam siris. Coloque a armadilha na hora
certa. Aguarde a maré baixa. Deve ser madrugada. Na maré alta, recolha a
armadilha. Pronto, siris. Cozinhe-os na água só com sal. Quebre-os e saboreie...
Não têm doces nem balas que se igualem aos siris caçados na maré alta. Outro
dia ensino você a pegar mariscos, ostras, caranguejos, polvos, lulas, e outros bichos
do mar... Então, continuando,
daquele navio, os mais aventureiros desceram e foram ficando por este mundo.
Alguns, perto do mar mesmo. Outros se meteram por terras mais distantes a
mascatear pelo interior. Os do mar se amigaram com os peixes e, na falta
de navios, entravam nos barcos dos amigos pescadores locais. Gostavam de pescar
à noite, na lua crescente, do Oriente. Então, na escuridão, tinham a impressão
de que aquela água salgada conhecia a sua terra, que a água já tinha passado
pelo porto da infância, e mergulhavam na escuridão do mar. Na volta, escolhiam
os melhores peixes, levavam para casa e, na hora de preparar...Aprenda, Marta, os
segredos dos sabores que trago da minha infância, lá do Verde Mar Azul Mediterrâneo Atlântico.
Sinta os aromas. Saboreie.
Mas, preste atenção, vou desenhar o navio
de que estou falando.
Ia traçando no ar os detalhes do navio, explicando peças e
mecanismos.
- Têm
também os nós de marinheiros que você deve aprender. É importante porque assim
você pode atar e desatar nós por toda sua vida. Segredo nosso, combinado?
Ria ao falar em segredos.
Quando
vim pra cá, viajei de segunda classe. Fiz andanças pelo interior, cacei bichos
diferentes dos da minha terra. Voltei pro mar. Sou um gigante do mar, sabe?
Nossa, você está cada vez mais parecida com sua avó!
Ao dizer isso, entoava
canções árabes, quase choros de palavras difíceis de se compreender, mas que
com o tempo tinham se tornado familiares, melodias e palavras.
Então,
eu sou o Gigante do mar. Por isso minha cara de peixe, meus olhos de
peixe, minha pele morena e salgada. – e ria novamente.
Um
dia, conheci uma mulher linda. Parei minhas andanças e passei a viver com ela e
por ela. A mais bela sereia que você possa imaginar. Como a amei todos os dias
da minha vida! Eu a cobria com os tecidos mais delicados e a perfumava com os
aromas mais femininos que encontrasse. Enfeitava-a de jóias.
Neste ponto, o Gigante dava sempre
uma paradinha, suspirava, a voz ficava mais mansa e o sotaque estrangeiro se
acentuava.
Gostava
de acreditar que vim de navio, atraído pelo canto daquela sereia. Cozinhava pra
ela, dançava com ela. Éramos marinheiro e odalisca no navio de aventureiros.
Felizes, navegamos juntos por muito tempo. Tivemos três filhos, como você já sabe.
Todos têm a leveza das brumas do mar. Por isso, Marta, não se entristeça nem se
canse demais. Não ligue para os dias chuvosos e estressantes da cidade grande.
Você é bruma. Eu e a sereia continuamos aqui, no navio, dançando felizes.
Minhas estórias são inesgotáveis e posso contá-las quantas vezes for
necessário. Tem muita coisa que ainda não ensinei a você e muito segredo que
ainda guardo. Não pode ser tudo de uma vez. Descanse. Voltarei sempre.
A água da banheira começava a
ficar fria e Marta, aos poucos, foi abrindo os olhos. Notou que estava mais
calma. Da janela, viu a chuva que ainda caía. Saiu da água, calçou as sandálias
encostadas na banheira, enxugou-se, passou hidratante no corpo.
Fechada em seu mundo muito
particular, ainda ouvia a voz do Gigante que ecoava e sentia a mão que ele apertara
na sua.
Vestiu-se, perfumou-se e foi
cozinhar.
Peixe assado, temperado com as
palavras do Gigante. Segredos culinários, muitos segredos.
Riu e, sem se dar conta,
cantarolou:
Tomei um
Ita no Norte e vim pro Rio morar; Adeus meu pai minha mãe...
“Engraçado esta música me vir à cabeça! Nada
a ver com o navio mediterrâneo. Se bem que nasci no Rio...”
Será que nada a ver?
O adeus de quem parte de qualquer lugar do oceano que beira qualquer
continente, qualquer pátria, é triste e traz sempre o desejo de voltar. Traz
saudade. Adeus pai, adeus mãe.
Ninguém sai de onde está feliz. Isto é fato.
E ninguém comanda seu destino. Outro fato.
Saudade é fato; sentimento incontestável.
Saudade e recordação não se podem impedir. Lógico, racional.
Muito menos se impede o quase dever sentimental e inquestionável de
transmitir a pátria interior àquele que descende e merece mares e terras não
conhecidas. Marta merecia. Chegaria a ser desleal aos que não são nascentes, como
Marta, não receberem um pouco da pátria, dos ares, dos mares, areias, gramas e ventos trazidos por seus
gigantes.
A pátria do coração. De nascença ou de abandono. Abandono querido ou
não. Abandono necessário e destemido.
Abandono poético, atraído pelo canto de sereia, distanciado por um mar imenso,
tangente, lá longe, muito longe das lágrimas derramadas dos que ficaram.
E enquanto houver esperança do retorno, quem partiu carimba passaporte da
saudade nas Martas meninas sentadas nos muitos cais do mundo, que olham mares,
navios e ouvem, recostadas em colos, sua próprias histórias.
Histórias de suas vidas ou histórias de suas outras vidas.
É saudade de pai. Aquele Gigante
que protege a cabeça, os pensamentos, a sanidade mental. É saudade de si.
O Gigante, um contador de
histórias de sua terra de mares verdes. Norte, sul, leste, oeste.
O aroma do peixe no forno já
se espalhava pela casa. Ouviu chaves na porta de entrada. Chegou o primeiro
filho, depois a filha, depois o outro filho. Marta beijou cada um. Mesa posta,
peixe servido e, nesses afazeres, Marta ia explicando ao mais moço como dar e
desfazer nó de marinheiro. À filha segredou os temperos do peixe. Mais tarde
poderia contar outros segredos de mulheres. O mais velho apenas olhava para ela
e sorria. A ele Marta já tinha desenhado navios, mostrado marinheiros e suas
odaliscas, pressentindo que ele já ouvira um canto de sereia e em breve
partiria levando as estórias e os segredos.
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